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AP Photo/SANA

Refugiados sírios descrevem o horror em Alepo após ofensiva

Para combatente, situação da cidade é ruim e obriga muitas pessoas a fugirem. Região ficou ‘completamente destruída’ pelos bombardeios aéreos realizados tanto pelo governo da Síria como pelos russos

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O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2016 | 08h46

KILIS, TURQUIA - Em um leito do hospital turco de Kilis, Mahmud Turki conta como sua vida virou um "inferno" quando o exército sírio, apoiado pela Rússia, lançou sua ofensiva contra Alepo. "Os bombardeios? Ninguém pode descrever isso".

Uma noite, quando o sol se punha em Minigh, ao norte de Alepo, o camponês de 45 anos assistia à televisão após jantar com a família. De repente, o fogo russo acertou sua casa.

"Desmaiei", lembra Mahmud, com cicatrizes por todo o corpo e pontos na cabeça. "O telhado caiu em cima de mim e dos meus filhos. Lembro de ouvir a voz da minha esposa, que perguntava se eu estava vivo ou morto", acrescentou. "Foi um momento terrível".

Assim como dezenas de milhares de civis que fugiram da batalha de Alepo, Mahmud seguiu para o norte, rumo à fronteira com a Turquia. No local, todos se amontoam em acampamentos improvisados e aguardam a hora de poder passar. Na sexta-feira, ele e muitas outras pessoas conseguiram cruzar a fronteira para serem atendidos.

Em um cômodo próximo, Alaa Najar se recupera aos poucos de um ferimento no ombro. Ele também foi vítima de um ataque aéreo contra Marea, ao norte de Alepo.

"Era um inferno. Não poderíamos suportar mais os bombardeios. Nem os nossos animais aguentavam", descreve, afirmando que havia pelo menos quatro por dia. "Tenho um gatinho. Quando ele ouvia o barulho os aviões, corria para se esconder debaixo da cama. Se até os animais sentem tanto medo, como os seres humanos vão suportar?".

O exército russo interveio na Síria em setembro de 2015 em apoio ao presidente sírio Bashar Assad. Moscou afirma que se trata de uma operação contra o grupo Estado Islâmico e outros jihadistas em guerra contra o regime. Contudo, os países ocidentais acusam a Rússia de atacar também a oposição considerada democrática.

Abandono

Nas últimas semanas, a participação russa permitiu às tropas de Assad e seus aliados avançarem perante a rebelião, sobretudo nos arredores de Alepo.

"A situação é ruim", diz Mohamad, um combatente rebelde ferido em uma perna, que conseguiu cruzar a fronteira turca na terça-feira, apoiando-se em muletas. "As pessoas fogem. A cidade ficou completamente destruída pelos bombardeios aéreos russos", acrescenta o homem de 30 anos que afirma ter perdido a mãe em um ataque russo. "Estamos sitiados pelos russos, os curdos a oeste, o Daesh (acrônimo em árabe para Estado Islâmico) a leste e o regime (sírio)".

Antes da guerra civil, Alepo era o polo econômico da Síria. Uma cidade ativa e rica em monumentos. Desde meados de 2012, passou a ser devastada por combates sangrentos e está dividida entre rebeldes, ao leste, e o exército regular, a oeste.

O regime lançou há oito dias a ofensiva que ameaça a insurgência e também os 350 mil civis dos bairros sob seu controle, que poderiam ficar privados de comida, água e combustível.

Mahmud Turki chegou à Turquia de ambulância. Sua família conseguiu reunir-se com ele três dias depois. Sua filha, Raghad, e seu filho, Musa, também ficaram presos sob os escombros e têm fraturas cranianas. "Quem nos atacou?", pergunta o pai ao filho. "Os bombardeios de Bashar", responde o menino de quatro anos.

Turki denuncia a passividade do mundo. "Não há comunidade internacional, ONU ou Genebra (onde se celebram as negociações de paz). As ONGs são uma mentira, o Conselho de Segurança é uma mentira".

Mas acima de tudo, o sírio culpa o presidente russo, Vladimir Putin. Aponta com o dedo seus dois filhos com ironia: "são membros do Daesh tomados como alvo pelos bombardeios aéreos de Putin". E continua: "Putin, o assassino, o assassino de crianças". /AFP

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