REUTERS/Muhammad Hamed
REUTERS/Muhammad Hamed

Crianças sírias refugiadas sonham em ir para a escola

Elas não podem se matricular, pois não têm residência nem visto; Unicef alerta para o risco de uma geração ser prejudicada

O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 07h00

ISTAMBUL - Mohamed tem oito anos e não deixa de sorrir, apesar de ter precisado fugir em 2013 com seus pais e seu irmão da cidade síria de Alepo, arrasada pela guerra, para se refugiar em Istambul. Agora ele sonha em ir à escola.

Em apenas alguns meses, Mohamed aprendeu a falar turco jogando futebol ou brincando de esconde-esconde com seus amigos do bairro de Esenyurt.

"Vedat, Serkan, Sefa, Emre", conta orgulhoso mostrando seus dedinhos. Mas, como quase todas as crianças sírias da Turquia, Mohamed é, antes de tudo, um refugiado.

"Gosto da Turquia pois na Síria há guerra. Aqui me sinto seguro", diz o menino. "O ruim é que não posso ir à escola. E gostaria muito de ir", afirma.

Ao contrário de muitos refugiados sírios que decidiram se aventurar no mar para chegar à Grécia e dali ir para algum país da Europa Ocidental, o pai de Mohamed preferiu ficar por enquanto na Turquia.

"Quando a guerra terminar voltaremos à Síria", diz Hussein, já que, segundo ele, "ir para a Europa é muito complicado".

Mas não faltam incentivos para tentar a sorte mais a oeste. Oficialmente "convidados" da Turquia, os refugiados não têm nenhum status e o acesso ao trabalho é muito difícil, com a exceção de empregos ocasionais muito mal pagos.

Assim como outras crianças do bairro de Eseyurt, Halil não teve opção. Aos 15 anos começou a trabalhar em uma fábrica de sapatos para alimentar sua família. Mas, após dois meses, foi embora, pois o patrão não queria pagar a ele as 1.250 liras turcas (370 euros) de salário que lhe devia.

O jovem diz, enquanto espera diante de um café a sopa e o pão que pediu, que não pôde denunciar o patrão à polícia, pois não tem visto de residência. "Aqui é como em casa. É a guerra! Os turcos não nos querem", afirma outro refugiado.

Dos 2,2 milhões de sírios que entraram oficialmente na Turquia desde o início da guerra civil, em 2011, apenas 260 mil vivem em acampamentos. Os demais sobrevivem como podem, trabalhando ou mendigando.

Na grande artéria comercial do centro de Istambul, a Rua Istiklal, há muitas crianças pedindo dinheiro entre os turistas e as lojas de luxo.

É o caso de dois irmãos que percorrem as ruas vendendo caixinhas de lenços de papel em troca de algumas moedas.

Mojtar, de 8 anos, segura uma cédula com firmeza. "É mais seguro se ele guarda o dinheiro", conta seu irmão Mohamed, de 18 anos, mostrando as cicatrizes das facadas que levou no ombro durante uma tentativa de roubo.

Durante a noite, o dinheiro recebido nas ruas completará as 600 liras turcas (175 euros) mensais que o pai ganha vendendo sucata. O suficiente para comer, mas não para construir uma nova vida nem para tirar da cabeça a ideia de seguir para a Europa Ocidental.

"As famílias sírias buscam o mesmo que qualquer família do mundo. Querem viver seguras, ter um emprego para cobrir as necessidades de seus filhos, levá-los à escola (...), dar a eles um futuro", explica um representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Philippe Duamelle.

Dos 600 mil refugiados sírios em idade escolar, apenas um terço vai à escola. Uma situação que muitos pais justificam em razão do preço das escolas e principalmente à falta de visto de residência exigido para matricular os filhos.

Precisamente, a Unicef quer aproveitar a ajuda econômica aprovada pela UE aos países fronteiriços da Síria para construir escolas e facilitar o ensino dos refugiados sírios na Turquia.

Mohamed espera voltar logo à escola para se tornar alfaiate. "Alfaiate não", diz o pai em tom de brincadeira. "Quero que você seja médico ou advogado."

Para Philippe Duamelle, o futuro das crianças refugiadas sírias deve ser uma prioridade. "Neste momento corremos o risco de sacrificar uma geração inteira de crianças sírias", afirma.

"As consequências seriam desastrosas, não apenas para as crianças e seu futuro, mas também para a Síria, a região e talvez mais além dela", completa. / FRANCE PRESSE

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