AFP PHOTO / CARLO HERMANN
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Refugiados somaram o recorde de 65,6 milhões

ONU diz que não tem recursos para lidar com novo fluxo

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2017 | 05h00

GENEBRA - Em 2016, o número de refugiados e deslocados internos atingiu um recorde no mundo, com 65,6 milhões de pessoas fora de suas casas, cidades e países em busca de asilo. No ano passado foram 10,3 milhões de novas pessoas nessa situação, uma a cada três segundos. 

Novos dados publicados pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados apontam ainda que o maior impacto desse fluxo de pessoas não está na Europa ou EUA, como líderes políticos como Donald Trump tentam argumentar. Mas sim em outros países pobres que, já com dificuldades para lidar com sua população, ainda acolhem milhões de estrangeiros.

"Não se trata de uma crise dos países. É uma crise dos países em desenvolvimento. Essa é uma tragédia inaceitável", declarou o alto-comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi. Uma a cada 113 pessoas no planeta é hoje refugiada e, juntas, seriam o 21.º maior país do mundo.

De acordo com Grandi, 84% da população em fuga de guerra e fome está hoje vivendo em outros países pobres. Um a cada três refugiados está ainda nos países mais miseráveis do mundo, somando 4,9 milhões de pessoas. 

Para o representante da ONU, a mensagem de Trump de reduzir o número de lugares para refugiados pode mandar um sinal "ruim" para outros países que, em uma situação de maior precariedade, adotariam as mesmas barreiras. 

Durante 2016, cerca de 10 milhões de pessoas conseguiram voltar para suas casas. Mas, ao mesmo tempo que isso ocorria, outras 10,3 milhões foram obrigadas a fugir.

A Turquia é, pelo terceiro ano consecutivo, o país com a maior população de refugiados. Em termos percentuais, porém, a liderança é do Líbano. Hoje, mais de 25% da população do país é composta por refugiados. 

A maior população de refugiados continua sendo de sírios, com 5,5 milhões de pessoas. No entanto, em apenas seis meses em 2016, a crise no Sudão do Sul deixou 739 mil refugiados. Ao todo, são 1,9 milhão de sudaneses nessa situação.

Do total de 65,6 milhões, 22,5 milhões de pessoas são refugiadas, o maior número registrado pela ONU. No total, 2,8 milhões de pessoas pediram status de refugiado pelo mundo no ano passado. 

Recursos.

Apesar de um volume recorde de refugiados, a ONU alerta que não conta hoje com dinheiro para atender nem metade deles. No caso da Síria, a entidade diz que recebeu apenas 23% do orçamento de 2017 que precisa para dar abrigo e alimentos para os sírios que abandonam o país. No caso do Sudão do Sul, a taxa é de menos de 20%. 

"Estamos em uma situação muito ruim", disse Grandi. "Os planos foram criados. Mas não podemos aplicar", alertou. O alto-comissário alertou aos governos doadores que, sem um apoio financeiro, há o risco de que muitos refugiados abandonem os acampamentos montados na Turquia, Jordânia e Líbano e tomem o caminho da Europa. 

"Em 2014, quando houve um grande fluxo de pessoas em direção à Europa, o principal motivo foi a falta de apoio que tinham para ficar em países vizinhos à Síria", explicou. "A Síria parece se transformar em uma crise esquecida e, se isso continuar, será desastroso", alertou.  

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