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Repressão em Cuba quase triplica em 6 meses, dizem dissidentes

Guilherme Russo - O Estado de S. Paulo

06 Julho 2014 | 02h 00

Segundo a Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, detenções temporárias de opositores aumentaram 175,5%

Dados compilados pela Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN) – entidade que registra atos de repressão do regime castrista contra seus dissidentes – mostram que, nos últimos seis meses, as detenções de opositores em Cuba quase triplicaram em relação ao primeiro semestre de 2013.

As “prisões relâmpago” são consideradas as principais ferramentas do governo de Raúl Castro para reprimir seus opositores. São comuns de ocorrer durante manifestações contra o regime e anteriormente a reuniões ou eventos que possam resultar em protestos, como missas católicas e outros tipos de agrupamentos sociais. De acordo com o mais recente relatório da CCDHRN, publicado na terça-feira pela entidade, entre janeiro e junho de 2014, 5.904 prisões de dissidentes ocorreram em Cuba. No mesmo período de 2013, foram 2.143 casos – uma elevação de 175,5%.

As autoridades cubanas, segundo o diretor da entidade, Elizardo Sánchez, usam as prisões para tirar os dissidentes de circulação, com a intenção de evitar suas reuniões.

“Esses números não são abstratos. Estão indicando uma situação real de deterioração de Cuba, que é geral. Junto com a deterioração da economia também piora a situação política interna: aumenta a pobreza da grande maioria e também aumenta o descontentamento; e é natural que isso se manifeste. O governo, em vez de fazer reformas que o país precisa, somente responde com repressão. Por isso as cifras são tão altas”, afirmou Sánchez ao Estado.

O dissidente afirmou que a repressão é mais intensa no leste da ilha, principalmente contra os integrantes da União Patriótica de Cuba (Unpacu). “Não há correspondentes estrangeiros nem diplomatas olhando. A repressão é 20 vezes mais forte lá do que em Havana.”

O diretor da Unpacu, José Daniel Ferrer, afirmou que sua última prisão temporária, no dia 28, foi “bastante violenta” – e outros 11 dissidentes, incluindo sua filha de 16 anos, foram presos. Ferrer relatou que organizava diante de sua casa, em Santiago, uma exibição de vídeos musicais – que integra uma estratégia da Unpacu para “atrair a simpatia dos cidadãos descontentes com o sistema” posta em prática há dois meses – quando as autoridades chegaram, por volta das 23h30, e tentaram apreender os equipamentos de áudio e vídeo.

Segundo Ferrer, “os vizinhos se interpuseram pacificamente, mas com muita energia, e conseguiram salvar os aparelhos”. Por esse motivo, ainda de acordo com o dissidente, as autoridades arrombaram a porta de sua casa, o empurraram escada abaixo e o algemaram. Horas depois, ele foi libertado e descobriu que telefones, câmeras fotográficas, cabos de energia “e até um controle remoto”, além de US$ 420, tinham sido apreendidos. “Falaram que não vão devolver. Foi um assalto.”

O dissidente Guillermo Fariñas, ganhador do Prêmio Sakharov de Liberdade de Pensamento que representa a Unpacu em Santa Clara, foi detido quase semanalmente no semestre passado, segundo os dados da CCDHRN.

Fariñas afirmou que a repressão contra ele aumentou após a festa do Dia de Reis, em janeiro, em que a Unpacu distribuía presentes para crianças pobres – “sem falar de política”. “A partir de ali, o governo se sentiu ofendido”, disse, afirmando que os dissidentes de Santa Clara têm sido espancados e torturados durante as detenções.