República dos boatos

Faltam sete meses para a eleição presidencial na Argentina e, entre os três pretendentes favoritos a assumir a Casa Rosada, todos querem distância de Cristina Kirchner. Até mesmo Daniel Scioli, da legenda oficialista Frente para a Vitória, quer sua independência profilática pois, assim como a gripe, a política virulenta "pega".

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h01

Deve ser por isso que os títulos do tesouro argentino (Bonar), não param de subir. O horizonte celeste - pós eleições - promete.

É pena que não haja clareira à vista no caso Alberto Nisman, o promotor especial que foi encontrado morto no seu apartamento no dia 18 de janeiro, em circunstâncias ainda nebulosas, após bater de frente com a presidente e sua máquina peronista.

O caso, explorado à exaustão pela mídia argentina, ainda convulsiona o país de 42 milhões e movimenta o engenho de boatos, sempre próspero na Bacia do Prata. E pudera. Dois meses após a morte, o caso Nisman ainda está em aberto - assim como a investigação do ataque ao centro comunitário judaico Amia, caso que o promotor vinha investigando durante a última década.

Na ausência de desfecho convincente, sobram versões, cada uma mais fantástica do que a outra. O relatório oficial aponta a morte sem participação de terceiros. Numa palavra, suicídio.

A presidente Cristina Kirchner chegou à mesma conclusão e fez questão de divulgá-la na sua página do Facebook. Logo depois, mudou de ideia: Nisman teria sido assassinado a mando de um ex-agente de inteligência argentino, motivado por rancor e com intenção de incriminá-la.

Quem puxou o gatilho teria sido Diego Lagomarsino, ex-assistente de Nisman - a quem o assessor confessou ter emprestado seu revolver calibre 22, o mesmo do disparo fatal.

A versão de Cristina, curiosamente, foi quase idêntica à da ex-mulher de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, que contratou um perito particular concluiu que o promotor morrera executado "de joelhos". O provável autor? Lagomarsino. O motivo? Dinheiro. Segundo ela, Lagomarsino dava quase metade de seu salário de 41 mil pesos a Nisman, com quem compartilhava uma conta bancária no exterior.

"Aha!", disse Anibal Fernandez, o chefe de gabinete de Cristina, para quem Nisman torrava dinheiro público - guarnecido com a "propina" de Lagomarsino - em noitadas com "prostitutas vip". Sua mensagem: ninguém é inocente, nem mesmo o promotor visto como mocinho da história.

Pior para os argentinos. Quase dois terços da população acredita que jamais saberá a verdade sobre a morte de Nisman. Para o historiador argentino Federico Finchelstein, o embate de versões no caso Nisman é uma versão miniaturizada da batalha das narrativas sobre a vida e obra argentinas.

"No populismo autoritário, como no modelo do peronismo argentino, não se admite opiniões divergentes. Seu rival político é o inimigo e o discurso do mandatário é, por definição, o evangelho do povo como um todo", disse Finchelstein.

O saldo é uma confusão entre governo e Estado, em que a vitória nas urnas chancela o uso partidário das instituições democráticas.

O costume não é monopólio do kirchnerismo. O prefeito de Buenos Aires, que mantém laços estreitos com a iniciativa privada, não segue a cartilha peronista, mas tratou de emplastrar a cidade com placas de boas vindas pintadas de amarelo, a mesma cor do seu partido, o Propuesta Republicana.

Nesse clima absolutista, as narrativas conflitantes sobre o caso Nisman se tornam uma peleja aberta - digamos, um Boca Juniors contra River Plate forense - que, em vez de ajudar a esclarecer sua morte, só recrudesce os preconceitos. Nisman dedicou a carreira a desvendar o pior atentado terrorista do continente sul-americano. Morreu no breu. Mais um mistério argentino.

MAC MARGOLIS É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E COLUNISTA DO 'ESTADO'

Mais conteúdo sobre:
Mac Margolis O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.