AP Photo/Brynn Anderson
AP Photo/Brynn Anderson

Em derrota para Trump, democrata vence no conservador Alabama

Foi a primeira vitória do partido em 25 anos no Estado, um dos mais republicanos dos EUA

Cláudia Trevisan, Correspondente, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2017 | 01h46

WASHINGTON - Após uma disputa acirrada por uma cadeira no Senado pelo Estado do Alabama, o candidato democrata Doug Jones venceu nesta terça-feira,12, a eleição no Alabama para uma cadeira no Senado, o que encolheu a maioria do governo na Casa e impôs uma derrota humilhante a Donald Trump e à corrente insurgente do Partido Republicano que o levou à presidência no ano passado. Segundo a agência de notícias Associated Press, quando as urnas estavam com 99% dos votos apurados, Jones liderava com 49,5% dos votos contra 48,8% de Moore.

Nas redes sociais, Jones agradeceu ao Alabama pela vitória.

Hillary Clinton, que disputou a presidência dos EUA com Trump, também expressou seu apoio. "Nesta noite, os eleitores do Alabama elegeram um senador que os farão sentir orgulhosos. E se os Democratas podem vencer no Alabama, nós podemos - e mais - competir em qualquer lugar. Avante!", disse no Twitter.

Por uma margem estreita, os eleitores de um dos mais conservadores Estados americanos rejeitaram a candidatura de Roy Moore, um evangélico extremista acusado de ter molestado sexualmente adolescentes na década de 70, quando ele tinha mais de 30 anos. A mais jovem das supostas vítimas tinha 14 anos na época.

Apesar das alegações, Trump colocou o peso da presidência atrás de Moore e sofreu uma derrota crucial no Estado em que obteve 63% dos votos na eleição de 2016, uma vantagem de 28 pontos sobre sua adversária, Hillary Clinton. Jones conseguiu a façanha de ser o primeiro democrata a vencer uma disputa para o Senado no Alabama em 25 anos.

O resultado vai energizar os opositores de Trump, que já haviam conseguido vitórias expressivas em eleições regionais realizadas no dia 7 de novembro, quando levaram com margens superiores às previstas os Estados de Virgínia e New Jersey e várias prefeituras do país.

Na origem das vitórias democratas está a mobilização da mesma coalizão que levou Barack Obama à Casa Branca em 2008 e 2012: jovens, mulheres, negros e minorias. Moore venceu nas áreas rurais do Alabama, mas foi derrotado nos centros urbanos e em muitos dos condados médios nos quais Trump prevaleceu no ano passado.

A chegada de Jones ao Senado reduzirá a maioria do governo Trump na Casa a apenas 51 dos 100 votos, o que deve dificultar a aprovação de medidas que não contem com o apoio unânime do Partido Republicano.

Mesmo com dois votos de vantagem, a agenda presidencial enfrentou dificuldades no Senado. A proposta de rejeição do Obamacare, por exemplo, naufragou por uma diferença de apenas um voto, depois que três republicanos se manifestaram contra sua aprovação.

Jones é um ex-procurador célebre por ter conseguido a condenação, na década passada, de dois membros da Ku Klux Klan que explodiram uma igreja negra em Birmingham nos anos 60, provocando a morte de quatro meninas.

As acusações de abuso sexual contra Moore foram amplificadas por uma sucessão de casos que levaram à renúncia de parlamentares republicanos e democratas e ao afastamento de jornalistas e de celebridades de Hollywood, na esteira do movimento #MeToo (#EuTambém). 

Na véspera da eleição do Alabama, três mulheres que acusaram Trump de assédio sexual na campanha de 2016 reiteraram suas alegações e pediram que o Congresso abra uma investigação sobre a conduta do presidente. Trump gravou mensagens de apoio a Moore, realizou um comício na sexta-feira em uma cidade da Flórida próxima do Alabama e pediu votos para Moore em entrevistas e mensagens no Twitter.

"O povo do Alabama fará a coisa certa. Doug Jones é pró-aborto, fraco em crime, Forças Armadas e imigração ilegal, ruim para donos de armas e veteranos e contra o MURO", escreveu na mídia social no momento em que os eleitores começavam a ir às urnas. "Roy Moore sempre votará conosco. VOTE EM ROY MOORE!"

Às 23h10 (2h10, horário de Brasília), Trump congratulou Jones pela vitória no Twitter. O presidente observou que o resultado foi influenciado pelo fato de que parte dos eleitores (1,7%) escreveram nomes de outros candidatos na cédula. "Mas uma vitória é uma vitória", reconheceu.

"Parabéns a Doug Jones nesta vitória disputada. Os votos da cédula desempenharam um fator muito importante, mas uma vitória é uma vitória. O povo do Alabama é grande, e os republicanos terão outra chance com este assento, em um período muito curto de tempo. Isso nunca acaba!", disse o presidente.

A derrota de Moore também foi um golpe para Steve Bannon, o ex-conselheiro sênior do presidente que lidera uma cruzada contra o establishment republicano. Partidário do populismo-nacionalista que impulsionou Trump, Bannon pediu votos para Moore desde a primária republicana e participou de maneira ativa da campanha. A eleição foi convocada para preencher a cadeira que era ocupada por Jeff Sessions, nomeado para o Departamento de Justiça pelo presidente no início do ano.

"Alabama estava em uma encruzilhada", disse Jones em seu discurso de vitória. "Hoje, vocês tomaram o caminho correto." O candidato agradeceu o voto dos eleitores negros e latinos e fez um apelo à unidade do Estado.

Com 70 anos, Moore tem uma trajetória polêmica e é uma espécie de caricatura do conservadorismo religioso nos EUA. O candidato derrotado acredita que a lei divina está acima da dos homens, vê o homossexualismo como uma aberração, diz que a América foi grande pela última vez no período da escravidão e defende que muçulmanos não devem ser eleitos para o Congresso dos EUA.

Moore ocupou duas vezes a presidência da Suprema Corte do Alabama e foi afastado em ambas por descumprir determinações judiciais. Em sua primeira passagem pelo cargo, ele mandou construir um monumento com a reprodução dos Dez Mandamentos na entrada do edifício. Entidades de defesa dos direitos civis foram à Justiça pedir a remoção da obra, sob o argumento de que ela violava o princípio da separação entre Estado e igreja.

Moore disse em sua defesa que o monumento refletia "a soberania de Deus sobre os assuntos dos homens". Segundo ele, na tradição judaico-cristão, "Deus reina tanto sobre a igreja quanto sobre o Estado". O candidato se recusou a cumprir a decisão de remoção da obra e foi afastado do cargo por violar o Código de Ética Judicial.

Moore foi reeleito para a Suprema Corte do Alabama em 2012. Três anos mais tarde, ele foi afastado novamente por ordenar que juízes de primeiro grau e funcionários públicos ignorassem a decisão da Suprema Corte dos EUA que legalizou o casamento gay em 2015 e se recusassem a realizar uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.