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Retomada do aeroporto de Donetsk deixa ao menos 40 mortos

Andrei Netto, Enviado Especial / Donetsk, Ucrânia - O Estado de S. Paulo

27 Maio 2014 | 08h 01

Segundo ministro do Interior de Kiev, baixas na operação, feita após eleição, são de milícias pró-Rússia

(Atualizada às 20h45) DONETSK, UCRÂNIA - O Exército da Ucrânia anunciou na terça-feira, 27, ter retomado o controle do aeroporto internacional de Donetsk, o maior do leste do país, após dois dias de combates que deixaram pelo menos 40 mortos. A derrota militar teve um saldo pesado para os separatistas, que sofreram 38 baixas durante a tentativa de responder às Forças Armadas. Os confrontos provocaram uma nova onda de tensão política depois que Kiev insinuou que Moscou enviou mercenários para desestabilizar a região, um dia após a eleição de Petro Porochenko à presidência.

A vitória na batalha pelo aeroporto de Donetsk foi anunciada no final da manhã desta terça pelo ministro do Interior da Ucrânia, Arsen Avakov. "O adversário sofreu grandes perdas e nós não", comemorou, ressaltando que o Exército regular não teve nenhuma baixa nos confrontos. Dois civis, porém, foram mortos por estilhaços de morteiros lançados durante os choques, nos quais foram empregados artilharia pesadas, além de aviões de caça, helicópteros e tropas de paraquedistas.

Na tarde da terça-feira, no trajeto de 340 quilômetros entre Donetsk e Dnipropetrovisk, metrópole da região vizinha, os checkpoints criados por separatistas estavam abandonados e só tropas do Exército mantinham barreiras na região - em mais um indício de enfraquecimento da resistência.

Horas após a retomada do aeroporto, ponto estratégico da fronteira com a Rússia, o ministério das Relações Exteriores da Ucrânia acusou o governo russo pelo ingresso do que chamou de "terroristas armados" estrangeiros no território do país.

Em Moscou, o presidente Vladimir Putin refutou as denúncias e pediu o "cessar-fogo imediato" e o fim da "operação punitiva do Exército". Já o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, acusou o governo interno de Oleksandr Turchynov de intensificar a ofensiva militar para preparar o terreno para que Porochenko, seu sucessor eleito no domingo, assuma o governo sem o ônus de comandar operações militares no interior do país. "Se o cálculo é esmagar a resistência no sudoeste antes da posse de Petro Porochenko, para poder visitar Donbass como vencedor, isso não criará boas condições para uma acolhida hospitaleira na região de Donetsk", advertiu Lavrov.

Apesar do apoio da Rússia aos separatistas, os confrontos violentos às portas da cidade já causam estragos no entusiasmo da população pela criação da República Popular de Donetsk, ideia defendida por milícias armadas. Em razão do temor causado pelos combates da segunda-feira, escolas fecharam as portas e parte do comércio não abriu.

"Não gosto dos radicais de Kiev, mas os 'separatistas' não são separatistas. São só bandidos que estão querendo se aproveitar do momento", esbravejou ao Estado o produtor cultural Constantin Liagouchkine, de 36 anos. "É hora de acabar com isso."

Um dos principais motivos de indignação de parte dos habitantes de Donetsk é o suposto retorno das máfias, que, no vácuo de autoridade, estariam extorquindo transportadores de cargas e fomentando o clima de insegurança.

Observadores. Na terça-feira, a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) informou ter perdido contato com uma de suas equipes de observadores que acompanhavam as eleições no país. O grupo de quatro agentes, oriundos da Estônia, da Suíça, da Turquia e da Dinamarca, desapareceu na segunda-feira à noite. Eles faziam parte de um contingente de mil observadores internacionais enviados para avaliar a lisura das eleições do domingo. Em abril uma equipe de sete membros da OSCE já havia sido sequestrada por separatistas em Slaviansk.