Cláudia Trevisan/ESTADAO
Cláudia Trevisan/ESTADAO

Retórica ao menos expõe hipocrisia, dizem opositores de Trump

Jovens de Erie lamentam prejuízo causado por Trump à imagem do país, mas estão otimistas a respeito do futuro dos Estados Unidos

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Erie, Pensilvânia, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2018 | 05h00

ERIE, EUA - Aos 32 anos, Sean Fedorko representa a nova geração que se opõe ao estereótipo de Erie como uma cidade morta, que só pode reencontrar a glória com o improvável retorno de empregos industriais do passado. “O sonho das pessoas da minha idade não é trabalhar em uma fábrica.”

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Eleitor de Hillary Clinton, ele se disse “envergonhado” de ter Donald Trump como presidente. “Ele é ignorante, agressivo, mesquinho, egoísta e não sabe nada sobre a arte de governar”, diz Fedorko, que estudou ciência política e trabalhou em Washington. Em 2015, ele abriu um espaço de escritórios compartilhados que, segundo ele, aponta para o futuro de regiões como Erie. “Há um crescimento de pequenas empresas, do empreendimento e da inovação.”

Adam Glover, de 35 anos, é um dos cem profissionais que utilizam o espaço criado por Fedorko – em 2015, havia apenas 12. Seu pai se aposentou em uma das fábricas de Erie, mas Glover diz ter sido estimulado pela mãe a ter o próprio negócio. O seu é uma pequena empresa de multimídia, que produz publicidade e material de comunicação para seus clientes.

Apesar de considerar Trump um “idiota” e discordar de suas posições, Glover diz respeitar sua posição de líder do país. Negro, ele vê de maneira positiva a franqueza com que o presidente fala de temas controvertidos – a entrevista ao Estado ocorreu antes da revelação de que Trump se referiu ao Haiti e a países africanos como “lugares de merda”. 

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Glover acredita que a retórica de Trump evidenciou o racismo da sociedade americana, com a saída das sombras de supremacistas brancos. “Eu prefiro encontrar um urso que esteja visível do que um escondido em arbustos pronto para me atacar”, afirmou. “Agora, podemos discutir isso de maneira aberta.”

Cindy Grode rejeitou tanto a candidatura de Hillary quanto a de Trump. “Bernie Sanders era a única pessoa decente entre os três.” Em sua opinião, o atual presidente é consequência da reação aos excessos do politicamente correto e do ressentimento de uma classe média que estava cansada de ver todos os benefícios sociais e tributários irem para os mais ricos e os mais pobres.

Apesar de sua antipatia por Trump, ela é crítica da grande imprensa americana, que considera tendenciosa. “A imprensa não divulga nada positivo sobre ele e se queixa de tudo o que ele faz.” Para ela, o veredicto sobre o governo será dado este ano, no momento em que os contribuintes souberem se a reforma tributária promovida pelos republicanos reduzirá os impostos que pagarão. “Esse será o fator determinante.”

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Como Glover, ela também considera positivo o fato de que Trump trouxe à tona conflitos raciais e questões relacionadas ao tratamento das mulheres. “A América está sendo forçada a olhar para si própria.” Em sua opinião, o branco médio não tinha consciência das tensões que estavam sob a superfície, contidas pelo temor do politicamente incorreto. “Com Trump, isso explodiu.”

Um dos efeitos colaterais do comportamento e da retórica do presidente foi o movimento #MeToo (#EuTambém), pelo qual mulheres denunciaram casos de assédio sexual que atingiram políticos, celebridades e estrelas do jornalismo. “As mulheres se uniram para protestar contra outros aspectos do governo e se sentiram encorajadas a vir a público.”

Fedorko lamenta o dano provocado por Trump à imagem dos EUA no mundo, mas afirma que isso pode ser revertido no futuro com uma eventual troca de liderança. O que mais o preocupa são políticas que terão efeito de longo prazo, entre as quais cita a revogação de regulações ambientais e a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre mudança climática.

O empresário também é crítico da reforma tributária, que considera generosa com os mais ricos. “A solução não é dar mais para quem já tem muito. Criar uma dívida de US$ 1,4 trilhão para pagar pelos cortes de impostos não é uma boa estratégia.”

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