AP Photo/Cliff Owen
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Retórica de Bibi impede a paz, diz Obama

Em primeira declaração após eleição em Israel, presidente critica discurso de premiê

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

23 Março 2015 | 02h02

Quase uma semana depois das eleições em Israel, o presidente americano, Barack Obama, afirmou publicamente, pela primeira vez, que disse ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu que o discurso adotado por ele antes da votação abalou a negociação de paz com os palestinos.

A condenação forte e incomum foi feita em uma entrevista ao site The Huffington Post. "Eu disse a ele que, em razão do discurso priorizando as eleições, será difícil encontrar um caminho com pessoas que realmente acreditem que as negociações são possíveis", afirmou o presidente americano, em sua primeira declaração pública sobre a vitória de Netanyahu em Israel.

Um dia antes das eleições, o premiê israelense disse que, enquanto estivesse no poder, não haveria a consolidação de um Estado palestino. Após sua vitória ter sido declarada em Israel, Netanyahu tentou, em algumas entrevistas, voltar atrás em seus comentários, mas Obama deixou claro - assim como vários integrantes de seu governo nos últimos dias - que não acredita que o premiê israelense seja favorável à criação de um Estado palestino.

"Nós acreditamos, levando em consideração as palavras dele, que isso não acontecerá durante seu mandato. Por isso, precisamos avaliar quais as outras opções possíveis para garantir que não haja uma situação caótica na região", disse o presidente americano, se referindo ao conflito entre israelenses e palestinos.

Obama telefonou para Netanyahu parabenizando-o pela vitória apenas na quinta-feira, dois dias após a votação. Na conversa, ele disse que também comentou a mensagem do primeiro-ministro postada no Facebook no dia da eleição. Na ocasião, Netanyahu escreveu que os eleitores árabes estavam indo às urnas "em massa" - mensagem que foi interpretada como racista e uma tentativa de convocar eleitores judeus conservadores.

"Esse tipo de retórica contraria o melhor das tradições israelenses. Apesar de Israel ter sido criado a partir da história judaica e da necessidade de haver uma casa para os judeus, a democracia israelense estava calcada na premissa de que todos no país seriam tratados de forma igualitária e justa", afirmou Obama. "Se não for assim, então, acredito que isso dá munição não só para aqueles que não acreditam em um Estado judaico, mas também desmonta o significado da democracia no país."

Os comentários do presidente americano mostram que a relação entre os dois líderes se deteriorou ainda mais e a Casa Branca está engajada em uma disputa pública com o premiê israelense. Obama lembrou que os desentendimentos não afetarão a cooperação militar e de inteligência entre os dois aliados, mas ressaltou que seu governo não está satisfeito com as políticas adotadas por Netanyahu.

"Mesmo levando em consideração a segurança de Israel, não podemos apenas perpetuar o status quo e expandir os assentamentos. Essa não é a receita para a estabilidade na região", disse Obama.

Irã. Na entrevista, o presidente americano lembrou também que a vitória de Bibi não terá um "impacto significativo" nas negociações entre potências ocidentais e Teerã sobre o programa nuclear iraniano.

"É evidente que muitos israelenses desconfiam do Irã. É compreensível. O Irã já manifestou posturas antissemitas, sobre a destruição de Israel. É precisamente por isso que eu disse, mesmo antes de ser presidente, que o Irã não pode ter armas nucleares", disse Obama, acrescentando ter visto evolução nas conversas que tornam o acordo possível. / AFP e NYT

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