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Retrospectiva: Obama deixa Casa Branca com um legado ameaçado por Trump

Ainda não se sabe que rumo a reforma da saúde e aproximação com Cuba e Irã terão nas mãos do magnata; intensificação da guerra na Síria é considerado o maior fracasso da política externa do presidente

O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2016 | 10h13

WASHINGTON - O presidente dos EUA, Barack Obama, deixa um legado polêmico e ameaçado por seu sucessor, Donald Trump, principalmente com relação à reforma da saúde e à aproximação com Cuba e Irã, junto a um famoso fracasso na Síria e a derrota nos tribunais de suas políticas migratórias.

Obama, que fez história em 2009 ao se transformar no primeiro presidente negro dos EUA, havia apostado suas fichas na candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, para dar continuidade a suas políticas, mas acabou sendo surpreendido pela vitória do magnata nas eleições de novembro.

Quando se pergunta a analistas políticos de Washington, a maioria concorda que a reforma na saúde promulgada em 2010, conhecida como Obamacare e que estabelece a obrigatoriedade de contar com um seguro médico, foi a maior conquista em nível doméstico do atual presidente. Trata-se de uma lei "muito complexa" que beneficiou "mais de 20 milhões de cidadãos", disse o analista Roberto Izurieta, professor da Universidade George Washington.

Esse número de beneficiados faz com que Susan Burgess, professora de Políticas da Universidade de Ohio, se pergunte se será "politicamente sustentável" para os republicanos, com Trump à frente, manter sua promessa de encerrar o Obamacare. No entanto, ele parece decidido a executar essa promessa, e o sinal mais claro sobre isso é a pessoa que ele escolheu para dirigir o Departamento de Saúde, Tom Price, um legislador e cirurgião conhecido por sua forte oposição à reforma de Obama.

Também há bastante unanimidade entre os analistas sobre o fato de o presidente ter levado uma economia em crise e "em queda livre", nas palavras de Susan, para números razoavelmente positivos, quase oito anos depois da chamada Grande Recessão. O desemprego no país ficou em 4,6% em novembro, a taxa mais baixa desde agosto de 2007, e a economia americana cresceu a um ritmo anualizado de 3,2% no terceiro trimestre deste ano.

Mas essa recuperação também pode estar em risco com Trump, de acordo com Izurieta, que acredita que continuar pelo caminho do crescimento e melhorar esses números "iria requerer uma visão muito clara de para onde e como" se projeta o avanço.

Obama deixará o poder no dia 20 de janeiro com um nível de popularidade bastante alto: ao redor de 50%, algo que é "muito incomum" para o fim de um segundo mandato, comentou Susan.

Desde que foi assinado, em 2015, o acordo com o Irã já tinha muitos inimigos no Congresso dos EUA, onde os republicanos mantiveram maioria nas duas Câmaras nas eleições de novembro, e agora Trump disse que quer "rompê-lo", mas não deu detalhes de como irá fazê-lo.

Com relação a Cuba, o magnata foi muito mais explícito e, em razão da morte do ex-presidente Fidel Castro, ameaçou colocar um fim à reaproximação com a ilha se o presidente Raúl Castro não estiver disposto a ceder às suas exigências.

Trump é partidário de uma estratégia linha dura sobre a guerra na Síria, cuja intensificação fica como o maior fracasso da política externa de Obama, apesar dos esforços de seu secretário de Estado, John Kerry, para tentar reduzir a violência, particularmente na cidade de Alepo.

Entre os fracassos de Obama, Izurieta destaca também "sua incapacidade para ter uma relação básica com o Congresso", já que, na opinião do especialista, isto é, antes de tudo, "um dever do presidente", que precisa conseguir estabelecer acordos com os legisladores, mas, em seu caso, "a maioria dos republicanos" não ajudou na busca de consensos.

Empecilhos. Com a via para a reforma migratória fechada no Congresso, Obama proclamou por decreto no fim de 2014 medidas para frear a deportação de quase 5 milhões de imigrantes ilegais, que foram bloqueados pouco depois, a pedido de 26 Estados.

Após uma longa batalha judicial, a Corte Suprema, com um juiz a menos após a morte do conservador Antonin Scalia, não foi capaz de inclinar a balança a favor ou contra essas medidas, o que manteve o bloqueio, e o problema migratório passa agora para as mãos de Trump.

Ciente de que o republicano está "menos preparado" para ocupar o cargo que outros presidentes eleitos em razão da sua falta de experiência política, Obama adotou após as eleições um tom conciliador e pediu aos cidadãos dos EUA e do mundo que deem uma oportunidade a seu sucessor.

Mas o presidente também deixou claro que, "como cidadão americano que se preocupa profundamente" com seu país, não ficará calado e sairá em defesa dos valores e ideais nacionais, se considerar que eles estão sendo ameaçados por Trump. / EFE

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