REUTERS/Juan Medina
REUTERS/Juan Medina

Rivalidade de longa data

Regime de Franco alargou as fraturas entre Barcelona e Madri, que agora estão fundas

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 05h00

O Barça, um dos maiores times de futebol do mundo, tem seu estádio, o Camp Nou, na capital catalã. Nos últimos dois anos, cada vez que o Barça joga, ocorre o seguinte: quando o relógio da partida marca 17 minutos e 14 segundos, um furor sacode o estádio e um imenso rugido sobe aos céus, acompanhado de slogans independentistas. São os torcedores comemorando a convocação pelo governo da Catalunha, presidido por Carles Puigdemont, do referendo pela independência catalã, marcado para amanhã. A convocação continua valendo, apesar da reação irada do governo chefiado por Mariano Rajoy. 

E por que as manifestações começam exatamente aos 17 minutos e 14 segundos do jogo? Porque esse ritual remete a uma grande data histórica: em 11 de setembro de 1714 (daí os 17 + 14), no fim da Guerra da Sucessão da Espanha, as forças de Madri derrotaram as de Barcelona, dando a vitória aos Bourbons e pondo um fim brutal aos arrancos independentistas do grande porto catalão. 

Nesse dia de luto, a Catalunha faz sua festa nacional, o que não deixa de ser meio bizarro – na maioria dos países, as datas nacionais costumam evocar vitórias. Barcelona comemora uma derrota, como para manter a sede de vingança que os catalães têm dos madrilenhos, ou castelhanos. Por aí se vê que o confronto entre Madri e os catalães não é uma explosão momentânea de cólera. A rivalidade é mais antiga que a existente entre o Barça, e seu arquirrival, o Real Madrid. 

Já de início, a geografia separa as duas cidades: Madri, a capital dos reis, está no centro do país, em terras difíceis de lavrar. Barcelona, terra de pescadores, camponeses e comerciantes, fica de frente para a França, a Itália, a Grécia, a África. A Catalunha é muito mais rica que as terras áridas de Madri e do restante da Espanha. Ao longo da história, esses velhos antagonistas de orgulhos feridos conheceram momentos de tensão e calmaria. 

O regime ditatorial de Francisco Franco alargou a fratura entre as duas regiões. Franco não gostava dos catalães – intratáveis, democratas (às vezes anarquistas) e, com frequência, revoltados. E os catalães alimentavam as diferenças. Eles insistiam e insistem, por exemplo, em não falar castelhano. Franco torceu o nariz e proibiu a língua catalã. 

Foi uma péssima ideia. Eu, se por desgraça um dia vier a ser ditador, não tocarei na língua de meus adversários. A língua é sagrada. Afrontá-la é o melhor meio de se provocar uma revolta. Os catalães, que mostraram um grande heroísmo na Guerra Civil de 1936, desde então acusam os madrilenhos de serem cúmplices de Franco, o que é mentira. Foi em toda a Espanha que se desenvolveu uma resistência heroica, no fim vitoriosa, contra o franquismo. 

Há uma dezena de anos que a impaciência independentista dos catalães não para de se renovar. O status de autonomia que Barcelona obteve não bastou para acalmar os grupos mais resolutos. Desde 2012, vemos renascer a festa do 11 de setembro, a Diada, como fator de reagrupamento dos independentistas. Um status de autonomia extremamente avançado chegou a ser concedido à Catalunha em 2006. Infelizmente, foi anulado pelo Supremo espanhol. A partir de então, os sobressaltos se sucederam. Mas o capítulo mais tenso pode ocorrer amanhã. 

É preciso dizer que o poder central nada fez de concreto para acalmar os ânimos. Por cálculo ou por tolice, Rajoy, querendo apagar o incêndio, só fez atiçá-lo. Declarou o referendo inconstitucional, como confirmaram todos os tribunais constitucionais. Mas ele foi mais longe. Tentou sufocar a consulta, torná-la impraticável. 

Todas suas medidas se mostraram vãs, mas aqueceram os ânimos. E Puigdemont não recuou. Sua resolução é total. Dá para medir sua força e sua vontade ao se examinar os três partidos que se associaram para o plebiscito: o de Puigdemont, o Partido Democrata Europeu Catalão, conservador de direita; o partido Esquerda Republicana Catalã, e a Unidade Popular, de esquerda radical. São três sensibilidades incompatíveis, mas que deixaram de lado os antagonismos para se unir contra Madri. 

Pode-se prever o resultado? Se formos tomar por base Barcelona, com seu festival de cores da propaganda eleitoral, o agito de suas esquinas e cafés, acharemos que o campo da independência vai ganhar de lavada. De fato, os independentistas, talentosos, ruidosos, bons oradores, reduziram os adversários ao silêncio. Mas, segundo pesquisas e jornais, a disputa será bem mais equilibrada do que aparenta.

Há muitos catalães adeptos do centralismo de Madri, os “jacobinos”. Outros, embora tentados pela independência ou autonomia, temem que um “sim” num referendo proibido por Madri tenha efeitos catastróficos, talvez fatais. 

Uma consequência o referendo já trouxe, bem lamentável: levou a cizânia ao coração das famílias. Algumas estão fortemente divididas. A jovem põe a língua para o avô, a mãe puxa os cabelos do marido, o sobrinho expulsa o tio com um chute no traseiro, o bebê rejeita tomar a mamadeira. Santo Deus! É uma situação bastante interessante para estudo, mas lamentável dentro da ordem política.

E não subestimemos o impacto internacional do drama catalão. Com sua pretensão, essa província espanhola não está sozinha na Europa. A Escócia, uma parte da Irlanda, a Liga do Norte, a Bélgica flamenga, os bascos espanhóis e franceses, os catalães da França e outras minorias também querem levantar voo. É verdade que o separatismo existe desde que o mundo é mundo. Mas no mínimo é preciso admitir há alguns anos ele vem se multiplicando, ganhando intensidade. 

Quem poderia imaginar que a tendência de reaproximar povos e construir grandes blocos transnacionais, como a União Europeia, assustaria minorias e etnias e, na ânsia de unir, acabaria por multiplicar as fraturas? Se eu fosse um funcionário de alto escalão de Bruxelas nomearia uma comissão multiétnica para tratar do assunto. A “volta da nação”, no imaginário e no real, talvez marque os próximos anos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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