Ford Williams/Courtesy U.S. Navy/Handout via REUTERS
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Rússia acusa EUA de violar soberania síria e Trump ameaça ampliar ataques

Na ONU, representante do Kremlin afirma que ataque americano a base aérea de Bashar Assad foi ‘agressão’ e amplia instabilidade na região; russos suspendem acordo de troca de informações entre militares dos dois países durante os combates no país árabe

Cláudia Trevisan - Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2017 | 05h00

O ataque dos EUA à Síria colocou Washington e Moscou em rota de colisão e tornou mais difícil uma reaproximação entre os dois países no governo Donald Trump. A embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, disse ontem que seu país está pronto para “fazer mais” em resposta ao ataque químico que deixou 87 mortos na terça-feira e afirmou que ele ocorreu em razão da proteção dada pela Rússia ao regime de Bashar Assad.

Em resposta, Moscou acusou os EUA de terem praticado uma ação militar ilegal, sem autorização da ONU e sob um pretexto inverossímil. O ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, comparou o bombardeio contra a base aérea síria na noite de quinta-feira à invasão do Iraque em 2003, realizada sob o falso argumento de que o país possuía armas de destruição em massa.

O secretário de Estado, Rex Tillerson, disse na tarde de ontem que as ações futuras dos EUA na Síria dependerão da resposta do governo Assad ao ataque de quinta-feira, quando 59 mísseis Tomahawk foram disparados de navios contra uma base aérea síria. Segundo o governo americano, foi de lá que saíram os aviões responsáveis pelo ataque químico. Apesar de dizer que a ação foi bem-sucedida, Tillerson reconheceu que a pista de pouso da base continua em operação.

Na próxima semana, o secretário de Estado fará sua primeira visita à Rússia, durante a qual a situação na Síria deverá estar no centro da agenda. O governo Assad disse que o ataque foi uma “agressão” dos EUA e matou 15 pessoas – 6 na base aérea e 9 em vilas a seu redor. 

Especialista em Direito Internacional da Universidade de Michigan, Steve Ratner disse que há apenas duas possibilidades legais de ataque a outro país: como um ato de defesa em reação a uma agressão ou em ação aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. Nenhuma delas se aplica à ofensiva ordenada por Trump. Segundo Ratner, uma terceira opção seria uma intervenção para evitar catástrofes humanas, mas isso não é aceito de maneira unânime. “Até agora, os EUA não apresentaram fundamentação legal para o ataque”, observou. Ainda assim, a ação foi apoiada pelos aliados tradicionais de Washington na Europa, na Ásia e na Oceania.

O Kremlin alertou que considerou a iniciativa um “golpe significativo nas relações entre americanos e russos, que já estavam em uma situação deplorável”. O governo russo indicou que está suspendendo o acordo que tinha com os EUA de coordenar ações militares na Síria para evitar qualquer tipo de choque entre aeronaves no espaço aéreo do país em conflito. O entendimento vinha permitindo que ambos pudessem lutar contra o terrorismo, sem que a aviação russa ou americana fossem afetadas por disparos. A cada operação contra grupos terroristas, americanos e russos trocavam informações sobre a trajetória de seus ataques, suas posições e seus alvos.

Hal Brands, professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, disse que Trump ficou em uma situação difícil pelo fato de o ataque químico ter ocorrido poucos dias depois de seu governo anunciar que pretendia ter uma relação de boa vizinhança com Assad, para centrar esforços no combate ao terrorismo. “Se ele não respondesse, ficaria vulnerável a acusações de ter encorajado esse tipo de ação.” Além disso, Brands observou que há uma posição de longo prazo no governo dos EUA de prevenir o uso de armas de destruição de massa em qualquer contexto, mas principalmente contra civis.

A grande questão é o que ocorrerá se o ataque não mudar nada e Assad continuar a realizar ataques com armas químicas, avaliou. “Nesse caso, Trump será confrontado com o dilema de aumentar o envolvimento na Síria ou admitir que fracassou.”

Especialista em Oriente Médio da Universidade Johns Hopkins, Daniel Serwer concordou que um dos riscos da ofensiva é a Síria adotar uma posição desafiadora e continuar a usar armas químicas. Outros são o agravamento do confronto dos EUA com a Rússia e o total fracasso das tentativas de busca de solução diplomática para a guerra síria. / COLABOROU JAMIL CHADE

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