AP Photo/St. Peterburg via AP
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Rússia, China e a jihad

Retorno de extremistas que lutavam pelo EI na Síria põe governos em estado de alerta

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

07 Abril 2017 | 05h00

A explosão de uma bomba no metrô de São Petersburgo nos lembra de que os assassinos da jihad não só não desapareceram como também não atacam somente a Europa ocidental. Eles massacram a Rússia também. No mesmo dia, ficamos sabendo que na China, na região autônoma uigur de Xinjiang, nos confins da Ásia central, as autoridades de Pequim decretaram novas regras para lutar contra os fanáticos. De agora em diante, em Xinjiang, as barbas respeitarão certas formas e certos comprimentos.

Na Rússia, o terror islâmico havia diminuído desde a guerra da Síria. A razão era clara: a maioria dos jihadistas russos havia partido para o Oriente Médio para se juntar ao Daesh (como também é chamado o Estado Islâmico). Em fevereiro, Putin estimou esses “loucos de Deus” em 4 mil vindos do Cáucaso e 1.500 da Ásia central.

Nas repúblicas muçulmanas russas, no entanto, a tensão persistia. No Daguestão grassavam as macabras “viúvas negras”, as mulheres de jihadistas mortos que multiplicavam os atentados suicidas. De 2000 para cá, essas mulheres mataram 1.300 pessoas. Após a intervenção das tropas e da aviação russas na Síria, ao lado das tropas de Bashar Assad, o EI já havia lançado a ameaça: “Vamos fazer correr sangue na Rússia”.

Mas foi principalmente desde que o EI começou a desmoronar na Síria e no Iraque que o perigo de carnificinas na Rússia cresceu à medida que começaram a voltar os caucasianos que tinham se engajado na organização islâmica. O terror migra com eles, volta ao país natal – o mesmo movimento atinge a Europa ocidental, que treme à espera do retorno de seus jihadistas.

O mesmo temor explica o fato de a China ter endurecido o controle dos milhões de uigures muçulmanos de Xinjiang. Na mira do Comitê Permanente do Parlamento regional de Xinjiang figuram as barbas dos homens e os véus das mulheres.

Mas atenção: nos dois casos, a China é humana e matizada. Ela não estipula o comprimento que a barba pode atingir sem pôr em risco a segurança do país. Ela fala somente de “barbas anormalmente longas”. A avaliação é deixada à sabedoria dos controladores. A mesma moderação com as viúvas que usam um véu integral. Também aí a periculosidade desses véus negros é deixada ao juízo dos controladores.

Mais estranha é a regra relativa à TV. Será considerado um delito “não assistir à televisão do Estado ou ouvir a rádio do Estado”. A essa altura, eu não esconderei certa admiração: os chineses inventaram o “delito negativo”, o “delito ausente”.

Por toda parte, o pecado é ler livros proibidos ou escutar canções anarquistas. Em Xijiang, não. O delito é inverso. Ele é cometido pelas pessoas que não assistem à TV ou não ouvem rádio. Como os controladores saberão se eu sigo os programas oficiais de TV ou de rádio, o decreto não diz. Talvez eu deva convidar um controlador para minha noitada familiar para demonstrar que assisto à TV ou ouço rádio?

O endurecimento das regras chinesas prova que, nesses desertos do extremo Oriente, os mecanismos do terrorismo são os mesmos que na Europa ou na Rússia. Com a desagregação das cidadelas jihadistas no Oriente Médio – Mossul, Raqqa etc. –, Pequim teme o retorno de muçulmanos chineses que pegaram em armas na Síria. 

Já faz alguns anos que o islamismo radical ganhou “parcelas do mercado” nos oásis de Xinjiang. Famílias partiram para se juntar ao Partido Islâmico do Turquestão (PIT), a franquia jihadista uigur filiada à Al-Qaeda, ou então ao Estado Islâmico. Eis porque se você for chinês e uigur, trate de aparar bem a sua barba. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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