Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin via AP
Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin via AP

Rússia quer espaço deixado pelos EUA no Oriente Médio

Apesar de ser um influente ator na região desde o fim da 2ª Guerra, país quer assumir papel de mediador de conflitos

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 12h07

A Rússia exerce um papel de ator influente no Oriente Médio desde o fim da 2.ª Guerra, mas agora tenta ganhar protagonismo na região, aproveitando-se do afastamento dos EUA do papel de mediador nos conflitos da região. 

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“A Rússia definitivamente é um ator importante no Oriente Médio hoje. Tem boa presença na parte oriental da região e forte influência nas relações sírias sobre o Irã”, afirma o diretor do Centro Moshe Dayan para Estudos do Oriente Médio e da África, professor Uzi Rabi. 

A atuação de Moscou na Síria é hoje um dos pontos mais evidentes do direcionamento da política externa do governo de Vladimir Putin para o Oriente Médio. Na última semana, Putin visitou a Síria, onde foi recebido pelo presidente Bashar Assad, para anunciar a vitória sobre o Estado Islâmico e a retirada parcial de suas forças militares da região. Ele deixou claro que manterá a base aérea de Hmeymin, em Latakia, e uma instalação naval no porto sírio de Tartus. “A visita de Putin deixa claro que a guerra acabou e o caminho está livre para a Rússia colher os frutos do investimento que fez. Putin tentará chegar a acordos de cessar-fogo com os EUA em troca de manter uma certa estabilidade na região”, afirma.

Moscou começou a se envolver no conflito sírio e lançar ataques aéreos no país em 2015, favorecendo o regime de Assad e aumentando sua influência na região. Em novembro, Putin liderou uma reunião com Assad que envolvia Arábia Saudita, Egito, Israel e EUA para apresentar seu plano de solução política para o conflito na Síria. 

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“A Rússia se apresenta ao mundo como uma ponte entre sunitas e xiitas. Define-se como a ponte entre o Ocidente e o Oriente, como mediadora”, afirma a professora Sarah-Masha Fainberg, do Instituto de Estudos da Segurança Nacional. A proposta de Moscou para a Síria, segundo Sarah-Masha, mostra isso. A Rússia cria uma aliança com duas potências não muçulmanas da região, Irã e Turquia, e fala em uma Síria integrativa, laica, multirreligiosa. 

Fator americano

A política ativa de Moscou voltou a ganhar destaque quando o ex-presidente americano Barack Obama adota uma política de afastamento das questões regionais e os EUA passam a atuar fortemente na Ásia. 

No fim da década de 50, a Rússia apoiou a criação do movimento nacional palestino. “Atualmente, o Hamas (grupo radical islâmico que governa a Faixa de Gaza) é apoiado pelo Irã e a Fatah (facção palestina que governa a Cisjordânia) é apoiada pela Arábia Saudita. O ator em comum (em uma negociação entre os grupos) pode ser a Rússia. (Mahmoud) Abbas fez parte do aparato militar russo, foi formado na escola de líderes de Moscou”, afirma Sarah-Masha. 

Após o anúncio do presidente Donald Trump reconhecendo Jerusalém como capital de Israel, Putin mais uma vez se colocou em contraposição e se apresentou como o líder capaz de mediar um processo de paz entre israelenses e palestinos. 

No começo do ano, o Kremlin havia divulgado um comunicado reconhecendo Jerusalém Ocidental como capital israelense, o que agradava ao lado palestino – que reivindica Jerusalém Oriental como capital. “A Rússia sempre tentará ser um mediador na região, embora nesse tema seu poder seja menor. De qualquer forma, Moscou pode ser um ator complementar”, opina Rabi. 

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