Russian Defense Ministry Press Service/The New York Times
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Rússia usa Síria como campo de teste militar

Equipamentos militares russos de última geração são testados em alvos sírios

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2015 | 03h00

No Mar Cáspio, o gigante de aço despejou fogo pesado 26 vezes. E precisou de apenas 47,5 minutos para destruir 11 alvos a 1.500 quilômetros, no interior da Síria. Era noite de quarta-feira. Havia luar sobre a região oeste quando as ogivas de 400 quilos caíram em cima de estações de comando das forças do Estado Islâmico (EI) ao redor da cidade de Idlib. Centros de logística também foram atingidos. 

A primeira ação conjunta das forças russas e sírias arrasou objetivos dos extremistas que estavam sendo atacados sem sucesso desde 27 de agosto pelos esquadrões da aviação francesa.

Os mísseis Kalibr, com alcance de cruzeiro de 2.3oo quilômetros, foram disparados pelo cruzador Degestan, de 2.000 toneladas e 203 metros. Navios mais leves, como as corvetas Uglich, Sviyazhk e Ustyug, de mil toneladas fizeram a escolta. Nem seria necessário - muito distante, a flotilha não correu risco.

O efeito do Kalibr não foi limitado pela complexa hierarquização dos pontos de impacto. As novas armas - ou versões avançadas de modelos conhecidos - usadas pela Rússia na Síria fizeram soar sinais de alerta em todos os principais centros de negócios da indústria da Defesa. 

“Há três ou quatro anos, circulavam informações a respeito de uma nova geração de sistemas - mas não era possível avaliar o grau de sofisticação”, disse ao Estado o analista Anatoliy Grievchenko, do Centro de Estudos Internacionais de Moscou, agência ligada ao setor empresarial russo. 

Caça, míssil, bomba. Em maio, veio o tanque T-14 Armata, apresentado em desfile na Praça Vermelha. E, quatro meses depois, o conjunto de equipamentos transferido para a intervenção síria.

O presidente Vladimir Putin, em pronunciament0 na TV estatal, festejou o resultado do bombardeio de quarta-feira. Relacionou os alvos atingidos - uma fábrica de munições e explosivos, depósitos, reservatórios de combustíveis e três grandes campos de treinamento. E destacou o desempenho dos mísseis - sobrevoaram o espaço aéreo do Irã e do Iraque para chegar aos pontos de impacto no arco noroeste-norte do território sírio, entre Raqqa e Aleppo, com margem de erro máxima inferior a 3 metros.

O Alto Comando de Moscou despachou para as bases avançadas três diferentes tipos de jatos de combate - os antigos Sukhoi-24, (construídos há 30 anos, mas amplamente modernizados a partir de 2007), o Su-25 Frogfoot (especializado em suporte a operações terrestres, foi revitalizado para lançar bombas inteligentes de 1 tonelada) e o impressionante Su-34 Fullback, um supersônico de dois lugares lado a lado, capaz de carregar 12 toneladas de cargas de combate - mísseis, foguetes e bombas. Permite emprego em quaisquer condições meteorológicas, dia e noite.

O catálogo dinâmico está sendo marcado pela estreia de uma família de bombas guiadas pelo sistema Glonass, uma espécie de GPS russo. O sistema transforma bombas “burras” em “inteligentes” - de 150 kg a 1.500 quilômetros, a baixo custo, na faixa de US$ 15 mil a peça. Há arranjos para condução a laser.

Em Idlib, houve o batismo de fogo do poderoso Kh-29m, com a impressionante carga de 340 kg de explosivo. Seu raio de ação, no limite de 30 quilômetros, exige guiagem a laser associada ao Glonass. É brutal na tarefa de arrasar recursos de infraestrutura - como barragens, pontes e aeroportos. 

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