Russo ‘macho’. E depois?

Há apenas algumas semanas, o regime da Síria, que combate há quatro anos e meio uma rebelião que já deixou 240 mil mortos, parecia numa situação lamentável. Apesar da ajuda dos milhares de combatentes enviados em reforço pelo Irã e pelo Hezbollah, não parou, nos últimos tempos, de sofrer pesados revezes. Zonas sob seu controle estavam reduzidas a cerca de um quarto da superfície do país.

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2015 | 03h00

Mas isso era antes da espetacular irrupção da Rússia num conflito em que já estão envolvidas, de perto e de longe, numerosas potências mundiais e regionais. Iniciada no dia 30 com ataques aéreos contra as posições dos rebeldes, seguida por grandes operações terrestres e navais, a intervenção tomou rapidamente um alcance tal que está claro que o objetivo de Moscou já não é salvar um aliado ameaçado de naufrágio e consolidar assim sua posição na perspectiva de uma eventual negociação de paz com os insurgentes. As ambições de Vladimir Putin vão além: para ele, trata-se de modificar totalmente o conflito e afirmar, ao mesmo tempo, o prestígio da Rússia nesta turbulenta parte do globo.

Eloquente é o método utilizado. O alvo declarado do Kremlin é o Estado Islâmico (EI), organização radical que opera tanto no Iraque quanto na Síria, que adquiriu uma horrenda celebridade multiplicando massacres, execuções de prisioneiros e atos de vandalismo. Mas, até o momento, os ataques russos pouparam relativamente o EI, concentrando-se em outras organizações rebeldes, na maior parte islamistas, algumas delas apoiadas por EUA, Turquia, Arábia Saudita e Catar. 

Por mais espantoso que seja este fenômeno, sua causa é simples: de fato, são estes mesmos grupos que, no terreno, constituem a ameaça mais grave para Assad, porque cercam praticamente as zonas sob o regime. E é sobre estes grupos que se obstinam as forças regulares, sem atacar o EI. 

Melhor ainda, o EI consagra o essencial de sua energia no combate, não às tropas de Assad, mas de outros grupos rebeldes: a chamada competição islâmica. Este vertiginoso paradoxo não é o único. Ao mesmo tempo que apela para uma cooperação com os EUA com o objetivo de erradicar o EI, a Rússia não cessa de provocar - e mesmo de humilhar - Washington e seus aliados. 

Em várias ocasiões, a aviação russa violou o espaço aéreo da Turquia, membro da Otan, que manifestou sua preocupação diante da perigosa escalada. Aviões americanos em missão de bombardeio ou de reconhecimento tiveram de mudar suas rotas para evitar algum encontro muito próximo com as aeronaves russas. E, sem se preocupar com aviso prévio, a Marinha russa no Mar Cáspio, a 1,5 mil quilômetros do teatro das operações, dispara mísseis de cruzeiro. A isso acaba de se somar o papel crucial da Rússia na ofensiva terrestre lançada dias atrás contra os rebeldes pelas forças leais a Assad. 

Desde então, não se trata mais de uma simples ajuda enviada pelo Kremlin ao governo de Damasco, mas de uma plena contribuição ao esforço de guerra. Isso torna a Rússia camarada de armas de Assad, mas também do Irã e do Hezbollah, ou seja, um membro pleno do eixo xiita que apavora a maioria sunita do mundo árabe-muçulmano.

Tático brilhante, Putin deverá dar prova de seus talentos de estrategista. O líder russo preencheu com sucesso um grande vazio. Ele posa de macho, de homem de decisão - e de ação -, contrastando com a inércia do rival Barack Obama, cuja política intermitente desespera até os amigos mais próximos dos EUA. Ele aproveita das divisões que apareceram na Europa, sobre a questão da conveniência ou não de dialogar com a ditadura síria, para pôr fim ao sangrento impasse da Síria e ao afluxo de refugiados. Seus vizinhos turcos? Muito ocupados em guerrear contra os dissidentes curdos - o mesmo, diga-se, dos sauditas, ocupados com a guerra sunita-xiita que se desenrola às suas portas, no Iêmen.

Tudo leva a crer que, de imediato, a prioridade deva ser a consolidação do perímetro do território Assad, ou seja, o noroeste da Síria fortemente povoado por alauitas, seita nascida do cisma, à qual pertence o presidente sírio; território que constitui o único acesso da Síria ao mar e onde os russos dispõem de uma base no porto de Latakia. Mais difícil será a reconquista, em benefício do regime, de todo o terreno que perdeu nos últimos anos. A primeira destas eventualidades carrega em si os germes de uma divisão de fato da Síria. A segunda, implica numa guerra tão longa e dispendiosa que poderíamos nos perguntar se a Rússia dispõe realmente dos recursos para suportá-la. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ISSA GORAIEB É COLUNISTA DO 'ESTADO' E DIRETOR DO JORNAL DE BEIRUTE 'L'ORIENT-LE JOUR'R

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