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Santos pacificará a Colômbia?

Com o ex-presidente Álvaro Uribe no Senado, líder reeleito tem como desafio selar a paz

MICHAEL SHIFTER

FOREIGN POLICY

Depois de uma das campanhas presidenciais mais rasteiras de memória recente, os colombianos saborearam alguns momentos de civilidade no domingo à noite, quando reelegeram o presidente Juan Manuel Santos para um segundo mandato de quarto anos. O discurso da vitória de Santos - cheio de referências ao papa Francisco, ao escritor Gabriel García Márquez e à vitória da seleção colombiana sobre a Grécia na Copa do Mundo - sucedeu a observações de seu adversário derrotado, Óscar Iván Zuluaga. O desafiante de Santos havia superado cinco candidatos no primeiro turno, em 25 de maio, mas perdeu por uma margem de quase seis pontos para Santos no segundo.

Mas a atmosfera pós-eleitoral amistosa teve vida efêmera. Pouco depois de os candidatos fazerem os respectivos pronunciamentos, o ex-presidente Álvaro Uribe, que havia escolhido Zuluaga para representar seu partido do Centro Democrático na eleição, se manifestou. Ele atacou Santos, acusando-o da "pior corrupção da história". Seu catálogo de acusações incluiu compra de votos, propaganda ilegal de campanha e outros alegados abusos que derivam basicamente das vantagens do cargo que Santos ocupava.

Para Uribe - que ocupará um assento no Senado colombiano no próximo mês, poucas semanas antes de Santos tomar posse, em 7 de agosto -, a eleição foi uma fragorosa derrota. Aliás, o sucesso de Santos em sua sofrida batalha pela reeleição pode ser atribuído, em parte, ao fato de ter transformado o segundo turno num referendo sobre o estilo de política polarizadora, de confronto e vale tudo de seu antecessor imediato em dois mandatos.

Até alguns colombianos, gratos a Uribe pelo enfraquecimento de grupos rebeldes e a reafirmação da autoridade do Estado durante seus oito anos no cargo, temeram os possíveis custos de uma restauração de seu governo por trás da figura de Zuluaga. Eles temiam que, com a presença dominadora e incansável de Uribe no banco de trás do motorista, as instituições democráticas sofreriam e as relações com seus vizinhos - que haviam melhorado nos últimos quatro anos - ficariam novamente tensas (não há dúvida que o restante da América Latina, além de Estados Unidos e Europa, estava discretamente favorável a Santos). É tentador ignorar as fanfarronadas de Uribe e concluir que, com apenas 19 dos 102 senadores do país, seu partido não pesará muito na política colombiana. Afinal, Santos ainda terá maioria no Congresso e deve ser capaz de realizar sua agenda de reformas sociais. Mas o ex-presidente continua sendo uma força incrível, comanda um eleitorado leal e desperta paixões que o reservado Santos não consegue empolgar.

As divisões do país, tanto ideológicas como geográficas - Santos ganhou com folga na capital, Bogotá (onde ficou em terceiro no primeiro turno) e nas regiões costeiras, enquanto Zuluaga foi forte nas regiões cafeeiras e em Medellín, segunda maior cidade da Colômbia e terra natal de Uribe -, cristalizadas em torno da questão fundamental do processo de paz com a insurgência de cinco décadas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e, anunciada apenas na última semana, o muito menor Exército de Libertação Nacional (ELN).

Para Santos e seus apoiadores, as negociações em curso com as Farc em Havana, Cuba, foram o tema central da campanha. Eles veem o processo como a melhor maneira de pôr fim à dispendiosa guerra interna do país. Os que apoiaram Zuluaga e Uribe, por sua vez, insistiram em precondições muito mais duras (tais como encerrar o recrutamento de menores e cessar atividades criminosas) que complicariam seriamente as negociações. A divisão não é trivial e se resume a se a Colômbia é vista experimentando um conflito armado que pede uma solução negociada ou se está sob ameaça de um grupo de terroristas que precisa ser subjugado.

A habilidade de Santos para dar à questão da paz um foco mais incisivo, mais concreto e gerar entusiasmo - se não por ele, pessoalmente, para a causa mais geral - ajuda a explicar a impressionante virada no campo de batalha de Bogotá do primeiro para o segundo turno. Mais crucialmente, Santos conseguiu obter o apoio de líderes decisivos de esquerda na capital, entre eles, o atual prefeito Gustavo Petro e, em especial, a popular candidata presidencial do Polo Democrático Alternativo (e também ex-prefeita), Clara López Obregón, que havia conseguido mais de 15% no primeiro turno. Apesar de a esquerda ter deixado claro que diverge substancialmente de Santos numa série de questões econômicas e sociais e que não lhe dará carta branca durante seu segundo mandato, a perspectiva de um acordo de paz (e o medo de uma volta de Uribe, trazendo com ela a "guerra sem fim") superou qualquer desentendimento político.

Na votação final, Santos também dependeu da ativação do que é conhecido na Colômbia como "la maquinaria" (a máquina). Esta consiste num conjunto de estruturas políticas - incluindo os principais partidos, mas também sindicatos e associações comerciais - que haviam apoiado sua candidatura à reeleição, mas ficaram apáticas no primeiro turno, talvez por excesso de confiança. Com a economia crescendo quase 5%, esse aparato complexo, leal a Santos, estava bem lubrificado. No fim, ela trouxe votos suficientes para fazer a diferença. Como a experiência da América Latina no último quarto de século mostrou, é difícil derrotar um presidente que se candidate à reeleição (só ocorreu duas vezes desde 1990).

Em 2010, Santos venceu com o apoio de Uribe e da direita, mas foi ferozmente acusado de "traição" assim que entrou num processo de paz com as Farc e aliviou as tensões com o então presidente populista venezuelano Hugo Chávez. Desta vez, porém, ele deve sua eleição, ao menos em parte, a setores da esquerda. Com seu apoio, porém, há agora uma enorme pressão sobre Santos para finalmente negociar um acordo com as Farc e possivelmente com o ELN até o fim do ano. São altas as expectativas para ele avançar nisto sem hesitação até o fim.

Com a esquerda agora numa posição política mais forte por conta da centralidade das negociações de paz, o poder de barganha das Farc foi um pouco reforçado. Questões críticas e espinhosas na agenda, como reparações às vítimas e justiça para os crimes passados das Farc, ainda precisam ser abordadas e resolvidas. Em seu discurso da vitória, a mensagem de Santos às Farc foi que elas precisam negociar seriamente e de boa fé - que este era o momento de "decisão". Esta pode ser sua última oportunidade de aceitar um acordo de paz. As Farc, porém, são notoriamente difíceis de prever e têm uma boa dose de erros no passado.

Mais ainda, para Santos o problema é que, por todas as medidas, um número significativo de colombianos continua contrário ao que vê como termos e condições lenientes que poderiam ser negociados. Santos prometeu submeter qualquer acordo final a um referendo nacional ou a uma "consulta popular" - o que teria valor de "terceiro turno". Sua aposta é que, uma vez costurado o acordo, a maioria dos colombianos - ávida por ver o fim do conflito e para seguir em paz - acabará aderindo a ele.

Resta ver se isso vai funcionar como o governo prevê (em especial com Uribe no Senado, martelando contra).

Há muita coisa em jogo, não só para a Colômbia, mas também para a América Latina e os Estados Unidos. Se for bem-sucedido, o processo de paz poderá marcar o desfecho do único conflito armado restante no Hemisfério Ocidental. Mas as expectativas devem ser tratadas com cautela. Embora isto não significará o fim imediato da violência e do tráfico de drogas, a efetiva implementação de acordos de longo alcance daria um impulso significativo tanto econômico como psicológico ao segundo maior país da América do Sul e o mais próximo aliado de Washington no continente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

MICHAEL SHIFTER, DO FOREIGN POLICY, É PRESIDENTE DO INTER-AMERICAN DIALOGUE