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Entrevista.

Dedicado a investigar a NSA por 30 anos, autor quer comitê que apure excesso dos espiões e fim da coleta de metadados

'São 12 anos desde o 11-9, é hora de sair desta guerra'

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CLÁUDIA TREVISAN

CORRESPONDENTE / WASHINGTON

19 Janeiro 2014 | 02h 03

Quando James Bamford escreveu o primeiro de seus quatro livros sobre a Agência de Segurança Nacional, em 1982, a sigla NSA era tão desconhecida que alguns acharam que ele havia errado a ortografia relativa à Nasa, a agência espacial americana, que tinha muito mais proeminência naquela época. A NSA era uma sombra do que é hoje, mas Bamford já previa que ela se tornaria um organismo em expansão, que coletaria cada vez mais comunicações, eliminando gradualmente o território da privacidade dos cidadãos.

O jornalista e escritor, que dedicou 30 anos de sua existência a estudar a fundo a NSA, acredita que as reformas anunciadas pelo presidente Barack Obama na sexta-feira serão insuficientes para impedir a agência continue seu avanço.

Bamford defende o fim da coleta dos metadados - que registram origem e destino de ligações telefônicas e a duração das conversas - e a criação de um grupo independente com poderes de mapear todas as atividades da NSA e propor reformas, a exemplo do que fez o Comitê Church nos anos 70. "Precisamos de um comitê que olhe tudo o que a comunidade de inteligência fez nos últimos anos: a tortura, a espionagem ilegal, os assassinatos com drones", disse ao Estado na sexta-feira. A seguir, trechos da entrevista:

As reformas anunciadas por Obama são suficientes?

Provavelmente são suficientes para satisfazer alguns dos críticos, mas para as pessoas que realmente querem ver mudança, não foi grande coisa. É positivo que estejam mudando o programa de metadados para o setor privado em oposição ao governo e exigindo mandados para obtenção dos dados. Mas, de qualquer maneira, o programa é inútil.

O presidente disse 'esse debate vai tornar mais forte' os EUA. Vai?

Bem, nós só estamos tendo esse debate em razão de Edward Snowden. Se eu fosse o advogado de defesa de Snowden, eu diria: "Como vocês podem processá-lo quando o que ele fez foi tornar o país mais forte?". Não faz nenhuma sentido dizer que ele é um traidor. Temos que nos livrar da ideia do governo coletar metadados. E o caso Snowden é o exemplo perfeito do por quê. Ele foi capaz de passar quase um ano extraindo 1,7 milhão dos mais secretos documentos da NSA e a NSA não se deu conta até que ele apareceu em Hong Kong. Você quer confiar seus dados a essa agência? Eu não. Há muitas pessoas que querem dados e vão pagar muito dinheiro por isso.

Que tipo de paralelo o sr. vê entre o momento atual nos EUA e o vivido nos anos 70, antes do Comitê Church, que limitou a ação dos serviços de inteligência do país?

Vejo muitos. A NSA já estava fora de controle antes do Comitê Church, espionando milhões de telegramas no país todos os dias sem obter um único mandato judicial. Também estava ajudando o FBI a espionar os que protestavam contra a Guerra do Vietnã e outros ativistas. Um dos documentos revelados por Snowden mostra a NSA começando a propor o uso de visitas de pessoas a sites pornôs como uma maneira de desacreditá-las. É o mesmo tipo de coisa que eles fizeram nos anos 60, antes da Comissão Church, quando tentaram usar informação clandestina sobre as atividades sexuais de Martin Luther King para desacreditá-lo. O que eles fizeram nos anos 70 foi criar uma enorme comissão, a Comissão Church, para examinar tudo e fazer recomendações. Agora houve um grupo que apresentou boas sugestões. Foram cinco pessoas que se dedicaram ao assunto durante um par de meses e se foram. E o grupo foi criado pelo Executivo. Precisamos de algo mais independente, com poder de olhar em muitas áreas diferentes.

O que precisa ser feito?

Eu não sei o que existe lá. Precisamos de uma comissão que olhe tudo o que a comunidade de inteligência fez nos últimos anos: a tortura, a espionagem ilegal, os assassinatos com drones. São 12 anos desde o 11 de Setembro, temos essa guerra em andamento e temos de começar a sair dela. Obama começou a fazer algumas reformas, mas não sabemos o que mais existe. As reformas foram motivadas basicamente pelos documentos de Snowden. A ideia é criar um comitê que não dependa dos documentos, mas de examinar o que a NSA e outras agências estão fazendo.

O sr. acompanha a NSA desde os anos 80 e, desde então, a agência se expandiu de maneira espetacular. É possível controlá-la?

É muito difícil controlar a NSA, porque ela é tão grande, tão secreta e tão poderosa. É difícil, mas é possível. Depois do Comitê Church, foi criada a Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira e, por 30 anos, a NSA obedeceu à lei e teve como foco o exterior. Depois do 11 de Setembro, a agência se voltou para dentro do país, sem controles adicionais.

Considerando o discurso oficial de permanente ameaça terrorista, o sr. acredita que a população está preocupada com sua privacidade?

Acredito que sim. Se eles souberem que estão sendo espionados, eles ficarão muito indignados. O problema é que eles não veem isso acontecer. E é muito fácil assustar as pessoas dizendo que há terroristas. Na Guerra Fria existia o "medo vermelho", com o governo dizendo que havia um comunista sob todas as camas e isso nos levou a essas guerras loucas, como a do Vietnã. Esses medos provocam mais dano do que qualquer coisa.

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