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Se não é Guerra Fria, é o retorno a uma rivalidade hostil

Peter Baker* - The New York Times/O Estado de S.Paulo

20 Março 2014 | 02h 06

ANÁLISE: 

Há um mês, muitos americanos não conseguiriam encontrar a Crimeia no mapa. A anexação rápida da península por Moscou, porém, reformulou bruscamente o atlas geopolítico e pode ter encerrado 25 anos de relações muitas vezes tumultuadas, mas também construtivas.

Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, Washington e Moscou estavam empenhados em substituir a antiga rivalidade da Guerra Fria por uma nova parceria, testada em várias crises. Depois de cada ruptura, seja no caso de Kosovo, Iraque ou Geórgia, houve uma retomada de relações com as duas potências encontrando novamente um desconfortável equilíbrio.

A decisão do presidente Vladimir Putin de arrebatar a Crimeia da Ucrânia pode ser o início de uma nova era, mais perigosa. Se não se tratar de uma nova Guerra Fria, como alguns temem, provavelmente, entraremos num período prolongado de confronto e hostilidades difícil de superar.

Na terça-feira, na Casa Branca, o presidente Barack Obama delineou uma resposta com novas sanções para castigar a Rússia por sua ação que, como afirmou o vice-presidente Joe Biden, em Varsóvia, "nada mais é do que uma apropriação de terras". A chance de arrancar a Crimeia da Rússia é mínima e a questão de fato é se o Ocidente conseguirá impedir Putin de desestabilizar ou tentar se apropriar do leste da Ucrânia.

A integração firme da Rússia na comunidade internacional, que culminou com seu ingresso, em 2012, na Organização Mundial do Comércio (OMC), com ajuda de Obama, sofreu um retrocesso quando EUA e outras potências decidiram fazer seu encontro na próxima semana como G-7, pondo fim ao G-8, como era desde que os russos ingressaram, em 1998.

Estão em risco todas as áreas em que EUA e Rússia cooperam. Os dois países mantêm estreita colaboração no campo da exploração espacial e o acesso dos EUA à Estação Espacial Internacional depende inteiramente de lançamentos de foguetes russos. Tropas americanas que vão e vêm do Afeganistão sobrevoam o espaço aéreo russo. Agências de inteligência compartilham informações sobre organizações terroristas, mesmo que não todas. Especialistas americanos ajudam os russos a desmontar suas armas nucleares.

Mesmo que Obama e Putin troquem farpas, seus governos trabalham para diminuir os estragos. Diplomatas dos EUA e da Rússia mantiveram contato para se certificar de que ainda trabalharão juntos nas negociações com o Irã sobre seu programa nuclear.

Depois de ameaçar barrar inspetores nucleares dos EUA com base no tratado New Start, assinado por Obama, as autoridades russas informaram que as inspeções continuarão. "Temos cooperado mesmo existindo algumas diferenças, e sérias, em outros temas", disse o secretário de Estado, John Kerry. "Essa é a tragédia que ocorreu na Crimeia."

A relação foi retomada depois da guerra da Rússia com a Geórgia, em 2008. Obama, recém-empossado, estabeleceu como prioridade reatar os vínculos com os russos e muitos no Ocidente estavam dispostos a virar a página, em parte porque entendiam que o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, havia provocado Moscou.

Mas, muito antes de as tropas russas ocuparem a Crimeia, a relação já estava se deteriorando, particularmente desde que Putin assumiu a presidência, em 2012. Ele e Obama não se respeitam muito e o russo culpou os EUA pelos protestos em Moscou. Além disso, rechaçou tentativas de Obama para retomar conversas sobre redução de armas nucleares e recebeu Edward Snowden, ex-técnico da Agência de Segurança Nacional (NSA), responsável pela divulgação de escutas ilegais. Obama declarou uma "pausa" na relação e cancelou uma viagem a Moscou.

Para especialistas, não haverá uma nova Guerra Fria, uma disputa global capitalismo vs. comunismo. Putin é o líder do sentimento antiamericano, mas está mais enraizado no nacionalismo russo do que na filosofia marxista e mais concentrado na sua vizinhança.

*Peter Baker é colunista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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