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Seca foi combustível para revolução na Síria

THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA - O Estado de S.Paulo

21 Maio 2013 | 02h 06

Falta de chuvas, combinada com explosão demográfica, um regime corrupto e interesses externos, serviram para agravar a crise política no país

Uma visita a uma escola de Tel Abyad, nordeste da Síria, me deixou abalado. Ela estava vazia - de alunos -, mas refugiados haviam ocupado as salas de aula e camisas e calças de crianças secavam num varal esticado no playground. A tabela de basquete estava enferrujada e um pai se ofereceu para me guiar numa visita aos banheiros, que ele descreveu como lamentáveis. O local estava sem aulas havia dois anos. Foi isso que me apavorou. Crianças sem livros, professores ou aulas por longo tempo é um problema grave.

Eles crescem e se tornam adolescentes com excesso de armas e de tempo livre. Vi muitos em Tel Abyad. Eles são a lei da terra, mas não há dois que vistam o mesmo uniforme e muitos usam apenas jeans. Esses garotos se uniram bravamente aos adultos da cidade para libertá-la da tirania de Bashar Assad, mas agora a guerra chegou a um impasse, a vida está congelada numa terra de ninguém.

Há uma ordem improvisada, apenas suficiente para as pessoas viverem, mas não para reconstruir, mandar crianças para a escola ou começar negócios. Assim, a Síria está lentamente sangrando até a morte por ferimentos de bala autoinfligidos. Não há como não perguntar se haverá algum dia um país unificado de novo e qual desastre humano se desenrolará aqui se toda uma geração crescer sem escola.

"A Síria está virando a Somália", disse Zakaria Zakaria, sírio de 28 anos formado em inglês, que foi nosso guia. "Os estudantes já perderam dois anos de escola e não há luz no fim do túnel. Se isto continuar por mais dois anos, será como a Somália, um país falido. Mas a Somália fica lá em algum lugar do Oceano Índico. A Síria está no coração do Oriente Médio. Não quero isso para o meu país. Mas, quanto mais a coisa continua, pior fica."

Essa é a agonia da Síria. Não dá para imaginar a guerra prosseguindo por mais um ano, que dirá cinco. Mas, quando se sente a profundidade do ódio contra Assad e se observa a esporádica, mas bárbara, violência sectária, não dá para imaginar algum acordo de paz alcançado ou sustentado - sem tropas internacionais de paz no terreno para implementá-lo. No fim, todos teremos de ter essa conversa, porque esta não é uma guerra comum.

O desastre sírio é como uma supertempestade. É o que ocorre quando um evento climático extremo, a pior seca da história moderna da Síria, se combina com uma população em rápido crescimento e um regime repressivo e corrupto que desencadeia paixões sectárias e religiosas extremas, alimentadas pelo dinheiro de potências externas rivais - Irã e Hezbollah, de um lado, Arábia Saudita, Turquia e Catar, do outro - e no momento em que os EUA, em sua fase pós-Iraque, estão receosos de se envolver.

Estive na Síria para escrever minha coluna e trabalhar num filme para a série Showtime, Years of Living Dangerously, sobre a seca. Numa era de mudanças climáticas, provavelmente, veremos muitos outros conflitos desse gênero. "A seca não causou a guerra civil na Síria", disse o economista Samir Aita, mas a incapacidade do governo de responder a ela alimentou a insurgência.

Segundo Aita, depois que Assad assumiu, em 2000, ele abriu o regulado setor agrícola da Síria para grandes fazendeiros, muitos protegidos do governo, para acumular terra e extrair do subsolo toda a água que queriam, acabando por reduzir drasticamente o lençol freático do país. Isso começou a expulsar os pequenos agricultores do campo para as cidades, onde eles tinham de implorar por trabalho.

Desastre. Por conta da explosão demográfica, que começou nos anos 80 e 90 graças à melhora do sistema de saúde, os que deixavam o campo chegavam com famílias enormes e se estabeleciam em cidades menores em torno de cidades como Alepo. Algumas dessas cidadezinhas incharam, de 2 mil habitantes para 400 mil em uma década. O governo não conseguiu prover escolas, empregos e serviços adequados a essa massa jovem, que chegava à adolescência e à faixa dos 20 quando a revolução eclodiu.

Entre 2006 e 2011, cerca de 60% da Síria foram devastados pela seca e, com o lençol freático baixo demais e a irrigação prejudicada, não havia mais meios de sustento para 800 mil agricultores. "Metade da população da Síria entre os rios Tigre e Eufrates trocou a terra por áreas urbanas durante a última década", disse Aita.

Com Assad não fazendo nada para ajudar os refugiados, uma grande quantidade de agricultores muito simples e seus filhos se politizaram. "Estado e governo foram inventados nesta parte do mundo, na antiga Mesopotâmia, precisamente para organizar a irrigação e o cultivo de plantas", disse Aita. "E Assad fracassou nessa tarefa básica." Os jovens e agricultores, carentes de emprego, e a terra, carente de água, foram uma receita para a revolução. Basta perguntar aos que estavam aqui, a começar por Faten, a quem conheci em seu flat simples em Sanliurfa, cidade turca perto da fronteira síria.

Faten, uma sunita de 38 anos, fugiu com seu filho, Mohamed, de 19, membro do Exército Sírio Livre, que foi ferido num tiroteio alguns meses atrás. Criada na aldeia de Mohasen, nordeste da Síria, Faten, que me pediu para não citar seu sobrenome, disse que ela e o marido "possuíam terras". "Cultivávamos safras anuais. Tínhamos trigo, cevada e alimentos para o dia a dia. Havia chuvas e as colheitas eram boas. De repente, veio a seca. A terra ficou como o deserto.

Faten diz que o governo ignorou os pedidos de ajuda, até que todos se mudaram para a cidade. " A seca foi dura para os jovens, que queriam estudar e se casar, mas não tinham mais recursos para nenhum dos dois", disse. Famílias casavam suas filhas com menos idade porque já não conseguiam sustentá-las.

Assim, segundo ela, quando a primeira faísca de protesto revolucionário brilhou na cidadezinha de Deraa, Faten e outros refugiados da seca não demoraram em se alistar. "Aderimos na hora. A seca e o desemprego foram importantes para empurrar as pessoas para a revolução."

Zakaria Zakaria se lembra de como a seca transformou agricultores orgulhosos, donos de sua própria terra, em trabalhadores diaristas humilhados. "Quem quisesse um emprego público estável tinha de pagar propina para um burocrata ou conhecer alguém na agência estatal de inteligência", lembra.

Os melhores empregos na Província de Hasakah eram de companhias petrolíferas. Os refugiados da seca, porém, nem sonhavam com esse tipo de contrato. "A maioria dos empregos ia para alauitas", disse Zakaria, referindo-se à seita minoritária à qual pertence Assad. Somente na primavera de 2011, após os levantes na Tunísia e no Egito, Assad começou a se preocupar com os refugiados da seca.

Abu Khalil, de 48 anos, ex-plantador de algodão que havia se tornado contrabandista para sustentar seus 16 filhos depois que a seca arrasou sua fazenda, comanda o Exército Sírio Livre (ESL) na área de Tel Abyad. Ele me apresentou sua unidade de combate, apontando para cada homem armado ao seu redor e dizendo: "Meu sobrinho, meu primo, meu irmão, meu primo, meu sobrinho, meu filho, meu primo." Unidades do ESL são assuntos de família. Num país onde o governo quis, por décadas, que ninguém confiasse em ninguém, isso não é surpresa.

"Podíamos aceitar a seca porque ela era de Alá, mas não podíamos aceitar que o governo não fizesse nada", disse Khalil. Antes de nos separarmos, ele me disse que tudo que seus homens precisavam eram armas antitanques e antiaéreas para acabar com Assad. "Será que Obama não poderia deixar a máfia enviá-las para nós?", questionou. "Não se preocupe, não as usaremos contra Israel."

Como parte de nosso filme, acompanhamos uma ativista política, Farah Nasif, de 27 anos, formada na Universidade de Damasco, cuja fazenda da família também foi dizimada pela seca. Ela tipifica os jovens seculares, conectados, recém-urbanizados, que lideraram os levantes pela democracia. Todos tinham duas coisas em comum: não temiam mais o governo ou os pais e queriam viver como cidadãos, com direitos iguais. Se essa nova geração tivesse um lema, ele seria o mesmo usado na guerra de independência de 1925 contra a França: "Religião é para Deus. O país, para todos".

Nasif, porém, está dividida. Ela quer que Assad saia e todos os presos políticos sejam libertados, mas sabe que mais guerra "destruirá o resto do país". Seu instinto lhe diz que, assim que Assad se for, não há nenhum acordo sobre quem ou o que deve vir em seguida. Assim, todas as opções são preocupantes. Hoje, esta é a agonia da Síria - e a razão pela qual, quanto mais perto se chega dela, menos seguro ficamos sobre como resolver seus problemas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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