REUTERS/Ivan Alvarado
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Segundo turno apertado no Chile será decidido por comparecimento às urnas

Sebastián Piñera, de centro-direita, e Alejandro Guillier, de centro-esquerda, duelaram nas últimas semanas em busca do eleitor que não compareceu no primeiro turno da eleição presidencial chilena; abstenção pode bater novo recorde

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 21h00

Há menos de um mês, a vitória de Sebastián Piñera na eleição presidencial do Chile parecia certa. Ele teve apenas 36% dos votos, mas seu maior rival não foi Alejandro Guillier, que teve 22% dos votos, mas a abstenção, que chegou a 46%. Por isso, nas últimas semanas, os dois candidatos protagonizaram um tudo ou nada na tentativa desesperada de atrair às urnas mais da metade dos eleitores chilenos.

A verdadeira batalha política travada no Chile agora é para tirar do sofá os chilenos que não votaram. Desde que o voto deixou de ser obrigatório no país, em 2012, o índice de abstenção só aumenta. No primeiro turno, foi recorde: dos 14 milhões de chilenos habilitados a votar, apenas 6,7 milhões compareceram às urnas. 

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No segundo turno, historicamente, essa participação cai até 10%. “É difícil convencer aqueles que votaram em postulantes derrotados no primeiro turno a saírem de casa para votar em um candidato que foi rejeitado”, afirma Eugenio Guzmán, sociólogo e professor da Faculdade de Governo da Universidade do Desenvolvimento de Santiago.

Por isso, nas últimas semanas, as duas campanhas fizeram de tudo para atrair o eleitor desanimado com campanha em massa nas ruas e nos meios de comunicação. Piñera foi atrás do voto da extrema direita e de candidatos que defenderam até mesmo o regime militar, como José Antonio Kast. Guillier tentou colar sua imagem à esquerda mais radical, que rechaçou sua candidatura no primeiro turno, e foi buscar o apoio do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica para o final de sua campanha. 

Cenário. A questão é se esse esforço se traduzirá em votos. “Será uma disputa muito apertada e, mais uma vez, vai depender da participação”, afirma Harald Beyer, diretor do Centro de Estudos Públicos (CEP) e ministro da educação do Chile de 2011 a 2013, no governo de Piñera. “Se mais de 700 mil pessoas deixarem de ir às urnas, é quase certeza a vitória de Piñera. Se esse número for menor do que 500 mil, Guillier começa a ter chances”. No primeiro turno, Piñera obteve 2.414.737 votos. Guillier, 1.495.853.

Os analistas comparam a tarefa de Guillier à de Pedro Pablo Kuczyski, o presidente do Peru, que derrotou Keiko Fujimori na reta final da eleição, com uma vantagem de apenas 40 mil votos. “Guillier é um candidato muito fraco, mas todos os candidatos de esquerda estão se agrupando atrás de Guillier, porque existe um voto anti-Piñera muito forte no Chile”, afirma o cientista político Patricio Navia, da Universidade de Nova York. “Piñera é mais moderado e não funciona como um personagem tão odiado quanto Fujimori, mas o cenário é igual.”

No primeiro turno, a eleição no Chile se tornou um plebiscito sobre o desempenho de Michelle Bachelet, que fez uma série de promessas que não conseguiu cumprir. Sua popularidade chegou a ser de 15%, a menor da história do Chile. Agora, com o fim de seu governo próximo, a aprovação já chegou aos 37% e o plebiscito é outro: se Piñera pode mesmo ser o presidente que o Chile precisa. 

“Apesar de todos os problemas da centro-esquerda, Piñera encarna uma elite empresarial que a maioria dos chilenos não gosta”, afirma Navia. “O problema é que, do outro lado, está um candidato frágil que não consegue mobilizar sua própria base”.

Apesar de ter um espectro muito mais amplo onde buscar votos, que vai da Democracia Cristã ao eleitor de esquerda tradicional ou radical, Guillier terá de lidar com a insatisfação do eleitorado. Em muitos eleitores de esquerda e de centro, a desilusão com o governo de Bachelet persiste. 

“Essa desilusão, sem dúvida, não foi sanada em um mês e vai afastar muitos eleitores de esquerda das urnas”, afirma o analista Ernesto Águila, professor de ciências políticas da Universidad de Chile. “Os outros campos da esquerda, principalmente o da Frente Ampla, fizeram uma campanha muito fraca de apoio a Guillier e têm um voto muito heterogêneo, difícil de reunir em apoio a um candidato que detestam, porque representa tudo aquilo que querem ver longe da política.”

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