ALBERT GEA/REUTERS
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Separatistas catalães mostram força em eleição e poderão voltar ao poder

Bloco de partidos favoráveis à secessão catalã alcança a maioria dos assentos no Parlamento e obtém direito de voltar a formar governo; resultado frustra estratégia de Madri de tentar solução política para crise

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 23h10

Correções: 22/12/2017 | 00h58

Em uma eleição surpreendente, a Catalunha decidiu devolver o poder regional ao bloco de partidos independentistas que governava até a intervenção de Madri, em novembro. Com 99% dos votos apurados, as três legendas secessionistas somaram 70 cadeiras, 2 mais que as 68 necessárias para alcançar a maioria no Parlamento, que tem 135 assentos. 

Mobilizado para o pleito, o eleitorado catalão quebrou o recorde de participação em uma votação regional, com taxa de 81,93% dos 5,5 milhões de aptos a votar.  A votação foi considerada um teste de força pelo poderoso movimento que defende a separação da Catalunha.

O partido unionista de centro-direita Ciudadanos, liderado por Ines Arrimadas, foi o mais votado, com 25,5% dos votos válidos, e conseguiu eleger 37 deputados. 

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Em segundo lugar, estava o partido independentista de centro-direita Juntos por Catalunha, do governador destituído Carles    Puigdemont, com 21,7% do eleitorado. Apesar desse resultado, pelo sistema político espanhol as três legendas secessionistas tiveram a maioria dos assentos no Parlamento, elegendo 70 deputados – 2 a mais do que o mínimo necessário para governar.

Com isso, em teoria, Puigdemont poderia reivindicar o direito de liderar uma coalizão governamental e retornar ao poder. Mas o ex-governador está abrigado em Bruxelas, na Bélgica, desde que o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, anunciou a ativação do Artigo 155 da Constituição, destituindo seu governo, dissolvendo o Parlamento regional e convocando eleições antecipadas. A medida foi tomada após os deputados separatistas fazerem uma declaração unilateral de independência em 27 de outubro.

Processado pela Justiça por crimes de rebelião e desvio de verbas públicas, Puigdemont tem contra si um mandado de prisão em vigor em solo espanhol e comandou a campanha de seu partido a distância, sem jamais realizar um comício em Barcelona ou no interior da Catalunha. 

Nesta quinta-feira, o ex-governador foi representado por Laura Sancho, uma jovem de 18 anos, que “cedeu” seu voto a Puigdemont. Em nome do ex-chefe de coalizão independentista, a estudante votou no colégio Les Planes, em Barcelona, e disse estar orgulhosa de auxiliar o político, que definiu como “exilado em pleno século 21”. “Creio que ele merece mais do que ninguém porque sua situação política atual é horrível”, justificou.

“O Estado espanhol foi derrotado", disse Puigdemont na capital belga. "Não é normal, uma eleição que ocorre com candidatos na prisão e candidatos no exílio.” Pelo Twitter, ele agradeceu à jovem de 18 anos que depositou o voto em seu nome.

Na noite desta quinta-feira, não estava claro se ele poderia retornar ao país sem ser preso. Tampouco sua liderança havia sido confirmada pelos rivais. Pelas redes sociais, o ex-governador da Catalunha havia classificado o dia como histórico para o futuro da região. “É um momento em que a república dos cidadãos supera a monarquia do (artigo) 155”, afirmou, antevendo a vitória dos partidos independentistas. 

A incerteza com relação ao retorno de Puigdemont ao poder também não impediu a coalizão independentista de celebrar uma vitória histórica, que desautoriza Mariano Rajoy e devolve o poder aos secessionistas catalães. 

Em todas as sedes de partidos secessionistas, eleitores e militantes festejaram empunhando bandeiras “estreladas”, que simbolizam o movimento de ruptura entre Barcelona e Madri. Mais cedo, Oriol Junqueras, vice-governador que foi deposto e preso por rebelião e desvio de verbas, mas ainda assim chefe do terceiro maior partido, o Esquerda Republicana Catalã (ERC), alfinetou os unionistas e o primeiro-ministro espanhol, que teria usado a força política na tentativa de desmobilizar os independentistas, mas sem sucesso.

Carles Riera, líder do Candidatura Unida Popular (CUP), partido de extrema esquerda que completou a última coalizão governamental, deixou claro que voltará a se aliar aos demais secessionistas. “A república ganhou claramente as eleições”, afirmou, prometendo seguir na luta não apenas pela independência, mas também pelo fim da monarquia na Catalunha.

Primeiro líder político a se manifestar, o chefe do Partido Popular (PP) na Catalunha, Xavier García Albiol, defendeu as medidas adotadas por Mariano Rajoy – líder da mesma legenda em Madri – e sugeriu que um novo governo dos secessionistas pode não durar mais do que “alguns meses”. “Hoje, não foi possível aos constitucionalistas assegurar uma maioria diante dos independentistas”, reconheceu. 

Correções
22/12/2017 | 00h58

Diferentemente do que foi publicado, o Candidatura Unida Popular (CUP) é um partido de extrema esquerda e não extrema direita. O texto foi corrigido.

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