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EFE/LAURENT DUBRULE

Sessenta dias após as eleições, coalizão na Espanha fica mais distante

Socialista Pedro Sánchez depende do radical de esquerda Pablo Iglesias para governar, mas condições complicam uma aliança

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Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS,
O Estado de S. Paulo

20 Fevereiro 2016 | 07h00

A Espanha completa neste fim de semana 60 dias de um inédito impasse político, após as eleições de 20 de dezembro que resultaram na vitória amarga do atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy, e na fragmentação do Parlamento em quatro grandes partidos. A pedido do rei Felipe VI, o líder do Partido Socialista (PSOE), Pedro Sánchez, negocia a formação de um governo de coalizão de esquerda. Mas as chances de um acordo que ponha fim à incerteza são cada vez menores.

O período de instabilidade teve início com a insuficiente vitória de Rajoy e do Partido Popular (PP) nas eleições. Em um Congresso de Deputados dividido em quatro grandes partidos – e não mais dois, como acontecia desde 1982 –, a agremiação do atual premiê somou 119 assentos, longe da maioria absoluta de 176 necessária para governar. Alvo de sucessivos escândalos de corrupção, o conservador acabou isolado porque nenhum dos líderes da oposição aceita um governo de minoria.

Sem escolha, Rajoy se retirou – temporariamente – da disputa, levando o rei a pedir ao segundo colocado, Sánchez, que tente formar um governo de coalizão. Mas, com 89 deputados eleitos, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) também encontra dificuldades de obter o apoio dos dois novos partidos, Podemos, radical de esquerda, e Ciudadanos, de centro direita.

O resultado é que a conta não fecha. Mesmo que reúna o apoio de Alberto Rivera, líder do Ciudadanos, da Esquerda Republicana e de movimentos independentistas da Catalunha e do País Basco, a coalizão de Sánchez teria 152 deputados e seria incapaz de assumir o poder, com os vetos do PP e do Podemos.

Resta uma alternativa: um governo que reúna PSOE, Podemos, Esquerda Republicana e independentistas catalães e bascos. Essa formação teria 177 assentos no Congresso de Deputados – a maioria absoluta. O problema é que o líder do Podemos, Pablo Iglesias, tenta impor um programa de governo com € 24 bilhões em novas despesas, além de roubar o protagonismo de Sánchez.

Consciente da falta de alternativas, Sánchez aceitou na sexta-feira uma reunião de trabalho com Podemos e Esquerda Republicana e catalães. "Confirmo nossa disposição de participar da reunião, com o objetivo de pactuar um programa para a posse, que projete um governo progressista e reformista", disse o socialista. Iglesias mostrou-se aberto: "Eu tenho interesse em me encontrar com Pedro Sánchez, e se ele for à reunião, é claro que eu iria", disse o radical, deixando claro que só aceitará discutir uma coalizão, e não um voto favorável à posse do PSOE, sem seu partido. "Tem de ver o que se está negociando: se um governo ou a posse", condicionou.

Para cientistas políticos espanhóis ouvidos pelo Estado, as chances de acordo entre Sánchez e Iglesias são reduzidas, e cresce a perspectiva de novas eleições. "O ponto central são os cálculos estratégicos que os atores estão fazendo neste momento. Em termos de teoria dos jogos, tudo leva a crer que não haverá cooperação entre os atores", diz Bruno Ayllon, cientista político da Universidade Complutense de Madrid.

Manuel Cervera-Marzal, cientista político espanhol da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), entende que PSOE e Podemos já estão, na realidade, disputando a hegemonia como maior partido da esquerda. "Iglesias desempenha o papel de tático, impondo suas condições para um governo, de forma a colocar a bola no campo de Sánchez e impor ao PSOE a responsabilidade pelo fracasso. Já o PSOE acusa o Podemos de fazer uma falsa proposta de governo", explica. "Creio que todos estão compreendendo que vamos caminhar para novas eleições. A questão é quem vai levar a responsabilidade pela falta de um acordo."

No fim da semana, essa perspectiva parecia cada vez mais concreta. Em Bruxelas, um diálogo privado captado pelos microfones entre Rajoy – que Ayllon e Cervera-Marzal consideram um zumbi político – e o premiê britânico, David Cameron, deixou evidente o cálculo que todos os partidos políticos já estão fazendo. "O mais provável", disse o conservador, "é que tenhamos novas eleições em 26 de junho".

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