Arquivo pessoal
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Site ajuda vietnamitas a encontrar pais americanos

Dinamarquês usa página na internet para auxiliar ‘amerasians’ - gerados durante a guerra - a conhecer sua história

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h05

A Guerra do Vietnã, que durou de 1959 a 1975, não deixou apenas um saldo de milhões de mortos. Dela restou também um legado de buscas. Hoje na faixa dos 60 anos, veteranos americanos seguem em busca de seus filhos vietnamitas - que também têm o desejo de conhecer a outra metade de sua história.

A procura não é fácil, principalmente com a pouca informação que uns têm dos outros. Foi pensando nisso e depois de uma experiência vivida no Vietnã que o dinamarquês Brian Hjort decidiu criar um site e registrar ali histórias de "amerasians" - como são conhecidos os vietnamitas filhos de americanos.

"Uma das únicas formas de (os amerasians) encontrarem seus pais é essa. Ponho a história na minha página e espero que algum americano a reconheça, é a minha forma de ajudar", diz Hjort ao Estado.

O dinamarquês esteve no Vietnã em 1992 e conta que a experiência o fez querer ajudar. "Eu estava em Saigon ajudando um grupo a obter o visto para ir aos EUA e uma gangue de vietnamitas tentou me matar, um homem salvou minha vida então decidi que deveria ajudar de alguma forma." O site da organização Father Founded, criado em 1992 e modificado em 2008, apresenta diversas histórias, com fotos e descrições, de quem procura pelos pais americanos. "Nem todo caso tem final feliz. Cada caso é diferente e me lembra o por que estou fazendo isso", explica Hjort.

A história do vietnamita Vo Yen Long ficou na memória de Hjort como uma das mais tristes com a qual teve de lidar. "Eu o estava ajudando a encontrar o pai americano, William Untalan. Demorou muitos anos para encontrá-lo porque o nome que eu tinha estava errado. Por meio de um site, consegui o nome correto, mas o localizei no cemitério da Califórnia. Ele morrera em 1974, de ataque cardíaco. Quando contei ao filho, parece que ele perdeu o brilho e disse ‘sem pai, sem esperança’."

Casos que terminam com o reencontro de pai e filho ganham destaque especial no site. Foi o que ocorreu com a história de James Copeland, que encontrou a filha Tiffany em 2011 com a ajuda de Hjort.

Copeland esteve no Vietnã entre agosto de 1969 e outubro de 1970. "Quando voltei, minha namorada (Nguyen Thi Thu) me mandou uma carta dizendo que estava grávida e o filho era meu. Imediatamente me realistei, mas não me mandaram de volta", diz o veterano. O contato entre os dois passou a ser por cartas, mas durou apenas o período da guerra.

Copeland explica que, ao contrário de muitos veteranos, sempre quis saber onde estava a criança e, por meio de um senador do Mississippi - onde mora -, em fevereiro de 2011, conseguiu o contato de Hjort e o procurou. O dinamarquês viajou até Bien Hoa, no Vietnã, em abril, levando um mapa feito pelo americano que mostrava os lugares onde esteve.

Após passar dias conversando com moradores, Hjort descobriu que Tiffany e a mãe estavam vivendo na Pensilvânia, EUA. Elas haviam deixado o Vietnã havia muitos anos com a ajuda de um programa de refugiados. O dinamarquês enviou os dados para o americano.

"Quando eu vi a foto que Hjort me mandou, eu soube que ele tinha encontrado o que eu procurava e tem sido um mundo novo para mim desde abril de 2011", diz Copeland, tentando explicar o que sentiu ao encontrar a filha. "Minha vida passou a fazer sentido, é difícil explicar. Isso custou meu casamento, mas eu tinha de encontrá-la, não me arrependo."

Hjort não presenciou o encontro em razão da distância, mas fez questão de relatar todo o caso em seu site para incentivar outras buscas. "Minha história está completa e eu tive um final feliz, mas sei que existem outros filhos procurando por seus pais", afirma Copeland.

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