AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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Situação de Rex Tillerson no Departamento de Estado é inédita para cargo que ocupa 

Situação de Rex Tillerson no Departamento de Estado é inédita para cargo que ocupa

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2017 | 04h00

Desde que foi confirmado pelo Senado, no dia 1.º, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, não deu entrevista coletiva. Assim como não foi seguida a tradição de briefings para a imprensa no Departamento de Estado. Os repórteres que o acompanharam na sua primeira viagem, para a reunião do G-20 em Bonn, estavam ansiosos para lhe fazer perguntas. Mas também não foi desta vez. Na primeira reunião de Tillerson com o chanceler russo, Serguei Lavrov, na quinta-feira, a praxe foi abandonada para afastar o secretário da imprensa.

Um repórter americano perguntou a Lavrov o que achava da demissão do chefe do Conselho de Segurança Nacional, Michael Flynn. O general da reserva deixou o cargo na segunda-feira, depois que foi revelado que ele conversou com o embaixador russo em Washington sobre as novas sanções americanas contra a Rússia, antes mesmo de o então presidente Barack Obama anunciá-las, no fim de dezembro. As sanções foram retaliação pela interferência da Rússia na eleição, em favor de Donald Trump. “Você deveria saber que não interferimos nos assuntos domésticos de outros países”, respondeu Lavrov. 

Chegou a vez de Tillerson falar. Funcionários americanos então tiraram os repórteres do salão, para perplexidade deles e de Lavrov, que perguntou a Tillerson: “Por que você os enxotou?” Ao final da reunião, os repórteres foram chamados de volta. O secretário americano leu um comunicado de menos de um minuto, no qual disse ter exortado a Rússia a honrar o cessar-fogo no leste da Ucrânia, deu as costas e foi embora, ignorando a pergunta de um repórter sobre se o secretário e ex-diretor da ExxonMobil, que tem negócios com a Rússia, já conhecia Lavrov.

O secretário de Estado não responde às perguntas da imprensa por uma razão simples: ele não tem as respostas. A política externa está sendo feita na Casa Branca, por Trump, seu estrategista, Stephen Bannon, ex-diretor do site de propaganda ultradireitista Breitbart, e seu genro e conselheiro Jared Kushner, judeu ortodoxo, que fez doações a assentamentos judaicos na Cisjordânia, mas mesmo assim seu sogro acredita que ele pode ser um mediador entre israelenses e palestinos. 

Tillerson não só não participa da formulação como não é comunicado das decisões. Segundo relatos de diplomatas americanos, seus assessores têm consultado as embaixadas, que gozam de acesso direto ao presidente, para se informar sobre as linhas adotadas. 

A situação lembra a de Nicolás Maduro, quando era chanceler. Em novembro de 2007, em meio a uma crise com a Colômbia, o então presidente Hugo Chávez anunciou na TV estatal venezuelana o congelamento das relações com Bogotá. Maduro estava participando de uma entrevista noutro canal de TV e foi perguntado sobre a medida. Ele não sabia do que se tratava. Lembra, também, como Lula tirou o protagonismo do Itamaraty e o entregou ao historiador Marco Aurélio Garcia, seu assessor especial, para ideologizá-lo. 

Tillerson não tem nem pessoal para formular a política externa: seus secretários assistentes para as regiões não foram indicados, e muitos funcionários deixaram o Departamento de Estado ou foram demitidos. A chancelaria está esvaziada. Não há lembrança, em Washington, de tal desvalorização do cargo, tradicionalmente um dos mais importantes do governo.

Tillerson já entrou mancando no Departamento, ao receber o maior número de votos contra sua confirmação da história do Senado: 43. Sua nomeação, no entanto, parecia coerente com a proposta de Trump de submeter a política externa aos interesses econômicos imediatos. Tudo indica que Trump quer ter liberdade para improvisar, livre de relatórios e consultas. Se Chávez causou tumulto, imagine o que Trump pode causar.

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