Rukmini Callimachi/The New York Times
Rukmini Callimachi/The New York Times

Sob domínio do Estado Islâmico, fumar se tornou ato de rebeldia em cidade iraquiana

Apesar de muitas pessoas não serem fãs de cigarro, para alguns iraquianos o produto é um símbolo de liberdade

Rukmini Callimachi / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2017 | 15h06

Apenas uma semana depois de o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) ser expulso de sua cidade natal, Saleh fazia uma declaração. Ele queria que as pessoas soubessem que é fumante, hábito considerado crime e, até recentemente, teria como pena 20 chicotadas.

Saleh é um pastor de vacas que vive em Badoosh, uma região de colinas localizada a 24 quilômetros ao noroeste da cidade iraquiana de Mosul. Ele fez uma crítica severa aos integrantes do EI, que impuseram uma versão muito estrita do Islã aos moradores da vila durante os quase três anos em que ocuparam a região. Entre suas várias reclamações estava o fato de o grupo haver criminalizado um de seus prazeres diários: fumar.

Apesar de muitas pessoas não serem fãs de cigarro e nem sequer suportarem o cheiro, para Saleh, o produto é um símbolo de liberdade. Ele descreveu a dificuldade de encontrar o produto na região sob o domínio do EI, e a emoção que sentia ao quebrar as regras.

Akhtamar Classic, disse ele, era a única marca contrabandeada para o território controlado pelo grupo. Um maço costumava custar 750 dinares (US$ 0,63). Sob o comando dos militantes, o preço subiu para 20 mil dinares (US$17).

Saleh contou que não podia pagar esse valor. Então ele e quatro amigos de confiança juntavam dinheiro para comprar um maço, e chegavam até a quebrar cada cigarro em três pedaços para fazer com que durassem mais.

Ele afirmou que costumavam ir para os campos com suas vacas e fumar ali, cobrindo o rosto para diminuir a fumaça. Depois, escovavam os dentes e borrifavam perfume uns nos outros antes de voltar para a vila. Uma vez, em um posto de controle, um guarda do EI colocou a cabeça dentro da janela do carro em que eles estavam para cheirá-los, conta Saleh.

No dia em que o Estado Islâmico foi expulso da região, Saleh fumou quatro maços sem parar. Hoje, tem orgulho de trazer um consigo o tempo todo. “Gosto de andar por aí segurando o maço porque eu posso”, afirmou ele.

Um jovem descreveu a situação que vivia: juntava dinheiro com quatro ou cinco amigos para pagar pelos cigarros durante a ocupação. Um pacote costumava custar mais de US$ 100, o que, segundo ele, era quase o pagamento mensal de um terrorista do EI.

Ele explicou que fumava porque era viciado, mas também porque era seu modo próprio de resistência. Já outras seis pessoas entrevistadas disseram que fumavam para desafiar a proibição imposta.

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