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Sob pressão inédita, Evo tenta mudar Constituição para concorrer 4ª vez

- Atualizado: 21 Fevereiro 2016 | 03h 53

Bolivianos estão divididos quanto a permitir que presidente dispute novo mandato e 'sim' e 'não' estão empatados; partido não consegue converter popularidade de líder indígena em votos

Mais de 6,5 milhões de bolivianos vão às urnas neste domingo, 21, para decidir se permitem ao presidente Evo Morales disputar um novo mandato - o quarto desde que chegou ao poder no país em 2005. Afetado pela primeira vez por denúncias que o envolvem diretamente desde que venceu sua primeira eleição, o líder indígena pode sofrer uma derrota inédita. O motivo, segundo analistas, é não converter sua alta popularidade em respaldo à iniciativa de seguir no poder. 

A campanha pelo "sim" perdeu fôlego nas última semanas em virtude de um escândalo envolvendo o presidente e sua ex-namorada Gabriela Zapata, com quem ele teve um filho em 2007. Ela foi nomeada diretora da empresa chinesa CAMC, com quem o Estado boliviano tem contratos no valor total de US$566 milhões. Segundo as últimas pesquisas divulgadas uma semana antes da eleição, "sim" e "não" estão empatados com 40% das intenções de voto, além de 18% de indecisos.

Evo (C) faz campanha pelo ‘sim’: hegemonia ameaçada

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Evo reconheceu o relacionamento e o filho - que morreu com um ano de idade -, mas nega as acusações de tráfico de influência feitas pelo jornalista que revelou o caso - o apresentador Carlos Valverde. A advogada também nega que a sua contratação na CAMC tenha sido um favor ao governo boliviano. O vice-presidente Álvaro Linera disse que as denúncias foram feitas com o propósito de enfraquecer a campanha pelo "sim". 

Apesar do impacto, mesmo antes da denúncia o "não" já tinha liderado as pesquisas. De acordo com cientistas políticos que acompanham a Bolívia, Evo, que é bem avaliado por 79% dos eleitores, tem dificuldades em convencê-los de que precisa de um novo mandato. 

"O estado de ânimo das pessoas é muito claro: existe um mal estar. As pessoas não estão de acordo com a reforma da Constituição e julgam que o referendo não era necessário neste momento", disse ao Estado o cientista econômico Roberto Laserna. "O 'não' tem ganhado força e deve vencer nas grandes cidades. O que definirá é o voto dos camponeses, que também não estão convencidos."

Outro ponto que surpreendeu analistas foi a dificuldade do partido de Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS) de abrir vantagem contra uma campanha com poucos recursos e sem liderança como a do 'não' - mesmo com organização política e força econômica vindas de um período de dez anos no poder. 

Fragmentada desde a ascensão de Evo à presidência, a oposição tradicional não conseguiu liderar os adeptos do 'não', que se espalharam entre organizações sociais, estudantis e sociais. "Tanto os partidos quanto pequenos movimentos sociais estão à frente da campanha do 'não'. Mas é uma campanha que se assemelha mais a uma guerra de guerrilhas", afirmou o cientista político Romano Paz. "O principal fator é que nem todo mundo que vota no MAS e apoia Evo votará no 'sim'."

A explicação de fundo para a falta de engajamento com a proposta de Evo - que em dez anos conseguiu aprovar uma nova Constituição, vencer um referendo revogatório e evitar o movimento autonomista dos Estados mais ricos do país - é econômica. Após os anos de bonança produzidos pelos altos preços das commodities - gás natural, estanho e cobre -, o país viu sua receita com exportações encolher em 32% no ano passado. "A contração na economia já é sentida e alguns indicadores, como as reservas internacionais, têm caído", explicou Laserna. 

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