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EFE/Martin Alipaz

Sob pressão inédita, Evo tenta mudar Constituição para concorrer 4ª vez

Bolivianos estão divididos quanto a permitir que presidente dispute novo mandato e 'sim' e 'não' estão empatados; partido não consegue converter popularidade de líder indígena em votos

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Luiz Raatz,
O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2016 | 03h00

Mais de 6,5 milhões de bolivianos vão às urnas neste domingo, 21, para decidir se permitem ao presidente Evo Morales disputar um novo mandato - o quarto desde que chegou ao poder no país em 2005. Afetado pela primeira vez por denúncias que o envolvem diretamente desde que venceu sua primeira eleição, o líder indígena pode sofrer uma derrota inédita. O motivo, segundo analistas, é não converter sua alta popularidade em respaldo à iniciativa de seguir no poder. 

A campanha pelo "sim" perdeu fôlego nas última semanas em virtude de um escândalo envolvendo o presidente e sua ex-namorada Gabriela Zapata, com quem ele teve um filho em 2007. Ela foi nomeada diretora da empresa chinesa CAMC, com quem o Estado boliviano tem contratos no valor total de US$566 milhões. Segundo as últimas pesquisas divulgadas uma semana antes da eleição, "sim" e "não" estão empatados com 40% das intenções de voto, além de 18% de indecisos.

Evo reconheceu o relacionamento e o filho - que morreu com um ano de idade -, mas nega as acusações de tráfico de influência feitas pelo jornalista que revelou o caso - o apresentador Carlos Valverde. A advogada também nega que a sua contratação na CAMC tenha sido um favor ao governo boliviano. O vice-presidente Álvaro Linera disse que as denúncias foram feitas com o propósito de enfraquecer a campanha pelo "sim". 

Apesar do impacto, mesmo antes da denúncia o "não" já tinha liderado as pesquisas. De acordo com cientistas políticos que acompanham a Bolívia, Evo, que é bem avaliado por 79% dos eleitores, tem dificuldades em convencê-los de que precisa de um novo mandato. 

"O estado de ânimo das pessoas é muito claro: existe um mal estar. As pessoas não estão de acordo com a reforma da Constituição e julgam que o referendo não era necessário neste momento", disse ao Estado o cientista econômico Roberto Laserna. "O 'não' tem ganhado força e deve vencer nas grandes cidades. O que definirá é o voto dos camponeses, que também não estão convencidos."

Outro ponto que surpreendeu analistas foi a dificuldade do partido de Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS) de abrir vantagem contra uma campanha com poucos recursos e sem liderança como a do 'não' - mesmo com organização política e força econômica vindas de um período de dez anos no poder. 

Fragmentada desde a ascensão de Evo à presidência, a oposição tradicional não conseguiu liderar os adeptos do 'não', que se espalharam entre organizações sociais, estudantis e sociais. "Tanto os partidos quanto pequenos movimentos sociais estão à frente da campanha do 'não'. Mas é uma campanha que se assemelha mais a uma guerra de guerrilhas", afirmou o cientista político Romano Paz. "O principal fator é que nem todo mundo que vota no MAS e apoia Evo votará no 'sim'."

A explicação de fundo para a falta de engajamento com a proposta de Evo - que em dez anos conseguiu aprovar uma nova Constituição, vencer um referendo revogatório e evitar o movimento autonomista dos Estados mais ricos do país - é econômica. Após os anos de bonança produzidos pelos altos preços das commodities - gás natural, estanho e cobre -, o país viu sua receita com exportações encolher em 32% no ano passado. "A contração na economia já é sentida e alguns indicadores, como as reservas internacionais, têm caído", explicou Laserna. 

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