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Sobreviventes do tsunami de 2011 no Japão tentam continuar com suas vidas

Após desastre natural que deixou mais de 18 mil vítimas, fisionomia e hábitos da região afetada mudaram para sempre

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O Estado de S. Paulo

11 Março 2016 | 10h47

ISHINOMAKI, JAPÃO - Os estragos do tsunami são ainda evidentes no litoral nordeste do Japão. Cinco anos depois, seus moradores tentam lidar com a dificuldade de voltar à normalidade enquanto guindastes e escavadeiras continuam a trabalhar na reconstrução das áreas afetadas.

"Nos recuperamos pouco a pouco, mas o tsunami sempre volta", explicou Shigehisa Sato, um professor de ensino médio aposentado que acredita que as pessoas estão começando a sentir esperança e que tudo está voltando ao normal. "É o momento de enfrentarmos o futuro", frisou.

A fisionomia e os hábitos da região mudaram para sempre após o dia 11 de março de 2011, quando o tsunami, causado por um terremoto de magnitude 9,0 graus arrasou municípios inteiros e matou mais de 18 mil pessoas.

Os sobreviventes enfrentam o desafio de seguir com suas vidas sem esquecer da tragédia. Sato faz parte da Associação Futuro de Ishinomaki, projeto que explica aos visitantes como foi a tragédia.

Esta cidade na região de Miyagi, a 330 km de Tóquio, foi uma das mais afetadas pelo tsunami. Várias ondas de 10 metros mataram 6 mil de seus 160 mil moradores, e outros 27 mil perderam suas casas.

No momento do desastre, Sato era o subdiretor de um instituto situado na região mais atingida da cidade e se encarregou de retirar os estudantes do local em 50 minutos. Ele e outras 700 pessoas, dentre alunos, professores e moradores, permaneceram no terceiro andar do colégio durante oito dias, com temperaturas abaixo de zero e praticamente sem cobertores, comida ou bebida.

"A princípio não queria falar sobre isso. Era duro demais, não conseguia tirar da cabeça os alunos que morreram, mas me dei conta do quão importante é que as pessoas saibam o que aconteceu e mantenham viva a lembrança", relatou, enquanto mostrava o estado da cidade, vista de uma de suas colinas.

A dimensão da tragédia continua evidente. Todos os bairros de Ayukawa e Kadonowaki desapareceram, e só os edifícios em ruínas do instituto de Sato e um outro colégio permanecem de pé, de frente para o mar.

O governo japonês gastou entre 2011 e 2015 mais de 26 trilhões de ienes (R$ 832 bilhões) na reconstrução da região, mas calcula-se que em lugares como Ishinomaki ainda falte 60% para completar a reconstrução. Ainda há 59 mil pessoas das cidades de Iwate, Miyagi e Fukushima vivendo em alojamentos temporários pré-fabricados.

"Não vale a pena gastar tanto dinheiro. Nunca nada voltará a ser como antes. Muita gente se foi e não vai retornar. Não querem voltar para ver mais água em sua vida. Aqui só ficarão os velhos", argumentou Kozoue, dono do restaurante Gingyokusai, no centro de Ishinomaki.

A água inundou seu pequeno restaurante, que ficou fechado por três meses. Ele se salvou porque decidiu correr para a montanha ao ser alertado por um vizinho que um tsunami estava a caminho.

Ao longo do litoral de Miyagi, uma das províncias que mais sofreram com o desastre natural, a atividade dos caminhões e das escavadeiras não para. É a única vida que se vê perto do mar. Após anos de limpeza, começaram recentemente as obras de reconstrução, que elevaram o nível do solo e de um gigantesco muro anti-tsunami.

A 13 km de Ishinomaki está a cidade pesqueira de Onagawa, que ficou completamente arrasada por uma onda de 15 metros que matou 1.300 pessoas. Um cartaz recebe os visitantes: "Onagawa não se foi com o tsunami". Mas não há nada do ela era. Em seu lugar foi erguida uma nova e moderna estação projetada pelo arquiteto japonês Shigeru Ban, muito envolvido com a reconstrução da cidade.

As antigas ruas e casas do centro de Onagawa foram substituídas por um centro comercial ao ar livre, inaugurado em dezembro de 2015. Dezenas de visitantes, muitas famílias e grupos de amigos, que vieram dos arredores passeiam entre os novos restaurantes, cafés e lojas de presentes.

"Parece que tudo voltou à normalidade, que nos recuperamos. Mas não é verdade. Quando chega março, mês em que começam a aparecer as flores, vejo tudo cinza", explicou Satoko Kikuchi A enfermeira de um hospital de Ishinomaki, que levou cinco dias para poder voltar para sua casa, na cidade de Noburi, após o desastre, lamentou que no resto do Japão já não se lembrem da tragédia, ao contrário de sua cidade. "Aqui não esquecemos, nunca esqueceremos. A lembrança continua muito viva", disse. /EFE

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