Sutil negociação com o Irã

As intermináveis negociações sobre o programa nuclear iraniano, entre o Irã e o Grupo P5+1 (Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e Rússia, mais a Alemanha) aproximam-se do seu fim. O encontro de Lausanne, às margens do Lago Léman, na Suíça, que teve início ontem, em princípio deve se encerrar em breve, 12 anos após o início desta maratona diplomática complicada, sutil, obscura e exaustiva.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 Março 2015 | 02h03

O que está em jogo não é nada desprezível: trata-se de colocar ferrolhos de maneira que os avanços de Teerã no domínio da energia nuclear não possam de nenhum modo desembocar na fabricação de uma bomba atômica.

Todas as excelências reunidas em Lausanne estão condenadas a ter êxito, pois o prazo limite estipulado para tais conversações é dia 31.

O presidente dos EUA, Barack Obama, está sob a vigilância de um Congresso que desconfia muito de Teerã e se opõe a qualquer prolongamento das discussões.

O caminho que resta a percorrer está repleto de obstáculos e o comboio ainda pode capotar. Embora a maioria dos ocidentais acompanhe Obama, ele tem, na verdade, uma "pedra no sapato". E esta pedra é a França. O ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, não esconde sua preocupação. E o embaixador da França em Washington exasperou os americanos ao escrever, no Twitter, que "estabelecer o fim de março como prazo limite absoluto é contraproducente e perigoso".

O secretário de Estado, John Kerry, tentou tirar da frente o obstáculo representado por Fabius. No sábado fez uma escala em Londres, para encontrar seus homólogos europeus. E Obama, habitualmente discreto, ligou para o presidente François Hollande. Sem dúvida, a Casa Branca não esquece que em 2013 o mesmo Laurent Fabius publicamente se opôs a um texto americano sobre essa questão, considerado por Paris muito brando e tolerante.

Tensão. É preciso lembrar também que, diante das atuais tensões, há uma distorção permanente sobre o Oriente Médio entre os Estados Unidos e a França: Paris foi a única capital a se opor (e com razão) à guerra insana lançada contra o Iraque por George W. Bush.

Em 2013, Obama abandonou Hollande em campo aberto ao rejeitar repentinamente bombardear a Síria do presidente Bashar Assad, sob pressão do aliado da Síria, o russo Vladimir Putin. Humilhada, a França jamais esqueceu essa fria e espetacular mudança de posição do aliado americano.

Os outros europeus estão um pouco atônitos com o mau humor dos franceses. Israel, pelo contrário, aplaudiu com toda a força. Sabemos que, para o governo israelense um acordo com o Irã e portanto a suspensão das sanções contra o país é um pesadelo. O ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, Youval Steinitz, explicou essa obsessão do Estado judaico: ao comparar o caso do Irã com o da Coreia do Norte, que se tornou uma potência nuclear, ele afirmou: "O acordo prevê o congelamento das atividades de enriquecimento e inspeções em vez de exigir o desmantelamento das instalações e a neutralização da capacidade nuclear iraniana. E se o Irã, Estado xiita, se tornar um país no limiar de fabricar uma bomba, muitos países sunitas da região também entrarão na corrida nuclear". E concluiu, de maneira melodramática: "Esse acordo vai mudar o mundo".

A questão agora tem a ver com a tenacidade que os franceses mostrarão diante da pressão dos Estados Unidos e dos europeus. Paris conseguirá manter obstinadamente sua posição a ponto de fazer tombar o comboio nos metros finais? Provavelmente não. A cooperação franco-americana é crucial, forte e muito bem sucedida em outros cenários em chamas, como na Ucrânia e, sobretudo, na luta contra o mais terrível perigo que enfrentamos hoje: a loucura sangrenta do Estado Islâmico. Eis porque, sem ter evidências, pensamos que o acordo com Teerã deveria ser assinado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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