Alex Brandon/AP Photo
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Táticas arriscadas

As ações de Donald Trump e seu gabinete

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 05h00

No domingo passado, descrevi a desinformação e o caos como métodos de gestão e de propaganda do presidente americano, Donald Trump, e seu estrategista, Stephen Bannon. O exemplo daquele momento era o decreto que baniu refugiados. Nesta semana, temos um quadro mais claro de como isso se dá no campo da política externa, com os desfechos dos atritos com a China e o Japão.

Ao longo da campanha, Trump demonizou a China (ao lado do México), acusando-a de combinar moeda desvalorizada e tarifas de importação, ao mesmo tempo em que seus produtos invadem, sem impostos, o mercado americano. E ameaçou impor tarifas de até 45% sobre os produtos chineses.

Depois de eleito, ele acrescentou novas queixas - de que os chineses constroem instalações militares no Mar do Sul da China e não contêm sua aliada Coreia do Norte, que segue testando armas nucleares e mísseis de alcance cada vez maior. 

No dia 2 de dezembro, Trump deu mais um passo e pisou no principal calo dos chineses: conversou pelo telefone com a presidente de Taiwan, a nacionalista Tsai Ing-wen, atropelando a política de “uma só China”, condição para manter laços diplomáticos com Pequim. As relações EUA-China entravam no seu pior momento desde que o presidente Jimmy Carter rompeu com Taipé e reatou com Pequim, em 1979.

A negociação seguiu nos bastidores. O presidente chinês, Xi Jinping, que não voltara a falar com Trump desde o telefonema protocolar de congratulação pela vitória eleitoral, no dia 9 de novembro, disse que só o faria quando tivesse garantias de que Trump se comprometeria com o princípio de “uma só China”, e de que não haveria surpresas. 

Trump esperou até a noite de quinta-feira, véspera de sua reunião com o primeiro-ministro nacionalista Shinzo Abe, do Japão, o principal rival da China. E cumpriu o roteiro, rifando Taiwan e dizendo o que Xi queria ouvir. 

No dia seguinte, o mesmo se deu com Abe. Depois de eleito, Trump passara a incluir o Japão na lista de países que adotam práticas desleais de comércio com os Estados Unidos. Durante a campanha, ele já colocara em dúvida sua disposição de honrar o Tratado de Cooperação e Segurança Mútua, firmado em 1952, que prevê que os americanos defendam os japoneses, e vice-versa, em caso de agressão de um terceiro.

Na sexta-feira em Washington, Abe arrancou de Trump as garantias de que cumprirá o pacto, que representa para o Japão uma questão tão existencial, perante as ameaças chinesas, quanto é para a China o respeito a sua soberania e integridade territorial, na qual ela inclui Taiwan. 

Abe não chegou a Washington de mãos vazias: anunciou investimentos de US$ 150 bilhões de empresas japonesas em infraestrutura, com potencial para criar 700 mil empregos nos Estados Unidos. Já no que se refere à China, não ficou claro o que Trump ganhou com seu recuo. Talvez lhe baste o que deixou de perder, ao abandonar a rota de colisão com a segunda economia do mundo, potência nuclear e maior detentora dos títulos da dívida americana. Mas ainda há toda a água para rolar nas tratativas comerciais entre China e Estados Unidos.

Em seu livro A Arte da Negociação, de 1987, Trump se descreve assim: “Meu estilo de negociar é muito simples e direto. Eu almejo muito alto, então vou empurrando, empurrando, empurrando até conseguir o que quero”. A isso se soma a crença de Bannon, que tem exercido enorme influência sobre a política externa, de que sempre se fortaleceu na ruptura e no conflito.

Ao mesmo tempo em que apaga incêndios, Trump inicia outros, como fez no dia 28 na conversa com Malcolm Turnbull, quando ameaçou não cumprir um acordo firmado com o governo passado de troca de refugiados, e acabou batendo o telefone na cara do primeiro-ministro da Austrália, um dos mais leais aliados dos Estados Unidos.

Repare que, em nenhum desses casos, incluindo o do México, Trump rompe definitivamente. Ele chega ao limite e recua. O preço desse tipo de atitude costuma ser a perda de credibilidade. A menos que o presidente americano seja mesmo mais vivo que todos nós, como acredita ser.

 

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