REUTERS/Fabrizio Bensch
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Tentando reativar a locomotiva europeia

Triunfo incontestável de Macron na França dá a Angela Merkel a esperança de aprofundar a integração e repelir os movimentos populistas na UE

The Economist, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 03h00

Para a Alemanha, Emmanuel Macron foi o candidato dos sonhos na eleição presidencial francesa. Enquanto seus adversários de extrema esquerda e extrema direita na disputa batiam sem dó em Berlim, ele saía em defesa dos alemães. Nas duas visitas que fez à Alemanha durante a campanha, o novo presidente francês foi, para citar uma autoridade alemã, “perfeito”. 

Alguns dos auxiliares mais próximos de Macron falam alemão com fluência e têm vínculos estreitos com Berlim. Antes murchos, os laços franco-alemães já dão novos sinais de vida. Ou, como disse a chanceler Angela Merkel, citando o escritor Hermann Hesse, na primeira entrevista coletiva conjunta concedida pelos dois líderes, em 15 de maio, em Berlim: “Em todo início há pouco de mágica”.

Ainda bem que é assim, pois o novo ocupante do Palácio do Eliseu tem planos ambiciosos. Macron pretende usar as reformas econômicas internas e as concessões à pressão que os alemães fazem por maior integração militar para recuperar a confiança de Berlim e promover um “novo acordo” entre nações credoras e devedoras no interior da zona do euro. Isso incluiria um orçamento, um parlamento e um ministro de Finanças comuns. “Amigo Caro” advertiu em capa recente a revista alemã Der Spiegel.

Dará certo? Os políticos alemães estão divididos. Os céticos vão do partido pró-mercado FDP ao direitista AfD, passando pela CSU bávara e pela maior parte da CDU de Merkel, incluindo seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. 

Entre os entusiastas da ideia estão os verdes, os social-democratas – especialmente o atual ministro das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel – e a parte da CDU que aposta no aprofundamento da integração europeia. Merkel está mais ou menos a meio caminho entre uns e outros, como a própria opinião pública do país: levantamento realizado em maio pelo instituto de pesquisas Forsa mostra que 49% dos alemães concordam em “apoiar ativamente” os planos de Macron, enquanto 42% preferem “ir com calma”.

Futuro. Uma cúpula franco-alemã em nível ministerial, marcada para 13 de julho, deve resultar em alguns projetos bilaterais sobre temas como educação e energia. Nada de mais significativo acontecerá antes da eleição alemã, marcada para setembro. Mas, depois disso, se realmente conquistar a vitória expressiva que as pesquisas preveem, Merkel terá capital político de sobra para gastar e, provavelmente, a aposentadoria em mente. 

Schäuble não deve permanecer no Ministério das Finanças, que pode ficar com os social-democratas ou com os verdes – uma coalizão que incluísse o FDP provavelmente adotaria posições mais agressivas no front externo. Portanto, diz Henrik Enderlein, do Instituto Jacques Delors, de Berlim, é possível que as negociações em torno da formação do novo governo alemão representem um “momento histórico, a oportunidade de abrir as portas para uma verdadeira reforma da zona do euro”.

O instituto de Enderlein elaborou um plano intitulado “Reparar e Preparar”, que dá uma ideia do que pode ocorrer em seguida. O passo inicial seria a adoção de medidas de “primeiros socorros” para estabilizar o euro, com o fortalecimento de seu fundo de emergência, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, e a introdução do compartilhamento de riscos em alguns esquemas nacionais de seguros de depósitos. Em seguida, viria uma onda de reformas estruturais coordenadas, tendo como alvo os mercados de trabalho, por exemplo, e a formação de um fundo conjunto de investimentos. Por fim, possivelmente alguns anos mais tarde, haveria “um momento federal”: uma mudança no tratado da zona do euro, com a criação de um fundo monetário, um orçamento, uma autoridade financeira e um Parlamento, assim como um esquema comum de seguro de depósitos.

Se Macron não conquistar os alemães, dificilmente outro presidente francês será capaz de fazê-lo. E esse talvez seja seu ponto mais forte: Berlim tem consciência de que Marine Le Pen foi derrotada, mas ainda não é carta fora do baralho. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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