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Internacional

Visão Global

Terror em pequena escala

A ansiedade provocada pelos ataques pode produzir hábitos mentais abomináveis

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David Brooks, The New York Times,
O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2016 | 08h06

Na véspera do ano-novo, amigos e parentes sentaram num bar para tomar um drinque em Tel-Aviv. No dia seguinte, um homem armado fez vários disparos no mesmo local, matando duas pessoas e ferindo pelo menos outras cinco. Quando ouvi a notícia, fiquei horrorizado, é claro, mas não senti nenhuma emoção especial em razão da proximidade com a data do dia anterior.

Hoje, todos corremos o risco de nos tornarmos vítimas do terror aleatório, quer estejamos em Paris, San Bernardino, Boston ou em Fort Hood. Muitos já tiveram algum tipo de experiência com esses ataques. Em parte, quem determina se estamos no lugar errado no momento errado é o acaso.

No entanto, o acúmulo desses assassinatos insanos, aleatórios, apresenta um aspecto importante – até que ponto isso afeta a psicologia social e o ambiente cultural que habitamos. Vivemos na era do terror em pequena escala.

Em Israel, há também a onda do crime por arma branca. Neste país, temos assassinatos com armas de fogo em escolas e cinemas. Nas cidades, as mortes são provocadas pela polícia. Em outros lugares, são os ataques suicidas. Esta violência nos é oferecida diariamente pelo noticiário internacional.

Muitos ataques têm um enfoque religioso ou político. No entanto, sempre há também um elemento psicológico. Alguns jovens separaram-se dos pais, mas não se tornaram adultos independentes. Para escapar do terror da própria indefinição e insignificância, uns aderem a algum tipo de fanatismo religioso. Eles cometem um ato horrível acreditando que darão definição, significado e glória à sua vida. Credos, como o Islã radical, acenam com a ilusão de que o assassinato com a imolação é a forma mais nobre de sacrifício.

Os ataques fortemente motivados tornaram-se uma epidemia social. Diferentes atos terroristas em pequena escala somaram-se para criar um estado de ansiedade geral. O medo é uma emoção suscitada por uma ameaça especial, mas a ansiedade é um mal-estar corrosivo, sem um objetivo definido. Na idade do terror em pequena escala, esta ansiedade induz uma sensação de que os sistemas básicos de autoridade não estão funcionando, de que as autoridades não conseguem garantir a segurança das pessoas.

O mais provável é as pessoas terem uma sensação básica de que a vida é mais desagradável e mais precária – selvagem, bestial. Elas erguem muros tribais e desconfiam de quem está de fora. Esta ansiedade torna todo mundo um pouco menos humano.

Em todos os países essa ansiedade desafia a ordem liberal. Refiro-me ao liberalismo filosófico iluminista, não ao liberalismo partidário. É a crença básica numa sociedade aberta, na liberdade de expressão, no igualitarismo e no “melhorismo” (a crença no aperfeiçoamento gradativo). É a crença em que, mediante o diálogo fundamentado, os valores se aglutinam e o fanatismo regride. É a crença em que as pessoas de todos os credos merecem tolerância e respeito.

Tais pressupostos liberais foram contestados de cima durante anos pelos ditadores. No entanto, agora, estão sendo contestados por baixo, pelos antiliberais populistas que apoiam a Frente Nacional, na França, o UKIP (independente), da Grã-Bretanha, Viktor Orban, na Hungria, Vladimir Putin, na Rússia, e, sob certos aspectos, Donald Trump, nos EUA.

O aumento do antiliberalismo significou que uma das fraturas políticas mais importantes atualmente se dá entre os que apoiam uma sociedade aberta e os que apoiam uma sociedade fechada. Nos anos 90, a abertura e o desaparecimento das fronteiras era o que mais provocava a revolta, mas agora parte da esquerda abraça políticas de comércio fechadas e partes da direita abraçam políticas culturais e de migração fechadas.

O antiliberalismo tem sido mais perceptível na direita. Os conservadores liberais no sentido clássico estão em retirada, na medida em que os eleitores buscam homens fortes que fecharão as fronteiras e trabalharão para imbecilizar a sociedade. É muito cedo para dizer se o Partido Republicano terá menos eleitores evangélicos este ano, mas o teor do debate com certeza tem menos cristãos – menos caridosos, menos hospitaleiros para com os estrangeiros.

Cabe a nós, que acreditamos na sociedade aberta, travar um contra-ataque intelectual. Isso não pode ser feito repetindo as banalidades dos anos 90 sobre livre escolha e a harmonia natural entre os povos. Não se pode derrotar o fanatismo moral com um relativismo moral aguado.

Este só poderá ser derrotado com o pluralismo do comprometimento. As pessoas só se sentem realizadas quando assumem profundos compromissos morais. O perigo surge quando eles se comprometem, de maneira fanática e monopolista, com uma única coisa.

O indivíduo pluralista está comprometido com uma filosofia ou um credo, mas também com uma etnia, com uma cidade e também com um emprego, com diferentes interesses e fascinantes culturas estrangeiras. Estes diferentes comprometimentos têm uma função de equilíbrio e de moderação recíprocos.

Uma vida em mundos diferentes, entre pessoas diferentes, favorece a criação de uma existência humana multifacetada. A rigidez de um sistema religioso é forçada a confrontar-se com a desordem das relações de trabalho ou com uma associação de bairro.

A ansiedade causada pelo terror em pequena escala pode produzir hábitos mentais abomináveis. A fortaleza mental torna-se mais importante do que a fortaleza física. Isso significa defender a sociedade aberta, as culturas abertas e um compromisso básico com o pluralismo moral. A abertura vale o horror ocasional provocado pelos fanáticos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

DAVID BROOKS É COLUNISTA DO THE NEW YORK TIMES

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