Terror solitário cresce

'Lobos' que agem sozinhos são muito mais difíceis de prever e conter

*MARC, FISHER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2015 | 02h03

Dylann Roof, o atirador responsável pelo massacre em uma igreja em Charleston, nos EUA, foi o arquiteto da própria radicalização, inspirada no ódio online, e que se transformou num terrorista doméstico solitário, é o que pensam a polícia e estudiosos do movimento da supremacia branca.

Roof, de 21 anos, parece ter percorrido a rede digital muito visitada de websites nacionalistas brancos, que tem atraído milhares de americanos brancos, locais em que anonimamente atacam negros e judeus.

O paradoxo do extremismo racista na era da internet é que existem mais grupos e websites pregando a supremacia branca do que nunca. Mas o tamanho médio de cada grupo é menor e sua capacidade de se organizar além das caixas de comentários diminuíram consistentemente, de acordo com investigadores.

O surgimento do extremista autodidata colocou os investigadores numa situação difícil: os grupos racistas brancos são menos capazes de produzir uma violência organizada, mas os ataques que realmente ocorrem são cometidos principalmente de indivíduos sós, cujos caminhos trilhados para chegar a atos de violência são muito mais difíceis de rastrear.

Uma pesquisa com departamentos de polícia nos Estados Unidos realizada por especialistas da Universidade da Carolina do Norte e a Duke foi divulgada esta semana sugerindo que 74% consideram o extremismo de direita, incluindo grupos defensores da supremacia branca, uma das principais ameaças terroristas em suas comunidades, quase duas vezes mais do que o número de pessoas que incluem as ameaças islamistas nessa categoria.

Mas vários ataques recentes - como o tiroteio num templo da religião sikh em Wisconsin, e os ataques de 2014 contra centros judaicos em Kansas, foram cometidos não por grupos, mas por indivíduos que se radicalizaram e cuja capacidade de cometer atos tremendamente violentos não foi percebida a tempo.

Os próprios líderes de grupos extremistas afirmam que não conseguem mais partir da retórica para a ação por duas razões: foram neutralizados depois de anos de infiltração e monitoramento por parte do FBI e grupos privados como a Liga Anti-Difamação, o Centro Simon Wiesenthal e a Southern Poverty Law Center. E a migração do movimento para o mundo digital, onde os seguidores são amplamente anônimos, tornou mais difícil levar pessoas às ruas.

Grupos privados que monitoram extremistas têm na mira centenas de organizações e websites que pregam a supremacia racial, um número que disparou depois de o presidente Barack Obama ser eleito, segundo cálculos de investigadores públicos e privados.

Muitos desses websites são operados por um único indivíduo e grande parte dos seus seguidores tem apenas contato anônimo com colegas radicais. No ano passado, o diretor do FBI, James Comey, disse que "enfrentamos uma contínua ameaça por parte de extremistas violentos nativos que estão se radicalizando. Estão prontos a agir sozinhos, o que torna difícil identificá-los e refreá-los".

Os defensores da supremacia branca têm uma base visível no mundo real onde Roof vivia, na Carolina do Sul, uma região de muita riqueza e extrema pobreza. Um dos maiores grupos nacionalistas brancos, o Conselho de Cidadãos Conservadores, ativo no condado, e a Loja Patriótica Sulista, um repositório de literatura extremista e parafernália confederada, está em Abbeville, a 112 quilômetros do condado.

Apesar da presença de grupos supremacistas organizados, Roof - que às vezes dormia num colchão sem coberta num trailer onde vivia um amigo da escola - assimilou a virulenta ideologia sozinho, de acordo com investigadores e amigos. Não há indicações de que tenha se reunido ou participado de grupos.

Depois do massacre, líderes dos movimentos supremacistas rapidamente postaram comunicados condenando a violência, mas, embora tenham se preocupado com a linguagem, alguns disseram que novos ataques são inevitáveis.

Os crimes violentos em todo os EUA caíram a níveis recorde nas últimas duas décadas; no plano nacional caíram à metade em comparação com seu pico em 1991, de acordo com o Departamento de Justiça.

Apesar disso, pesquisas indicam que os americanos acham que o número de crimes vem aumentando.

Alguns grupos defensores da supremacia branca passaram a adotar uma linguagem mais sutil, procurando "retratar o nacionalismo branco como um movimento não violento e com menos ódio", disse J. M. Berger, pesquisador do Brookings Institution.

Se outros lobos solitários estão ocultos entre os que enchem as caixas de comentários dos sites supremacistas com ataques verbais, encontrá-los antes de praticarem atos violentos está mais difícil do que nunca.

Em muitos casos os extremistas que recorrem à violência o fazem não porque algum grupo os pressionou a cometer o ato criminoso, mas algum trauma os impeliu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA

 

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