AP Photo/Evan Vucci
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The Economist: Fim do acordo nuclear com Irã não é bom para ninguém

Segundo palpite de Trump, com sanções mais duras o Irã não financiará guerras e será forçado a negociar

O Estado de S.Paulo

11 Maio 2018 | 05h00

Ao se retirar do acordo nuclear firmado com o Irã, o presidente Donald Trump está confiando em uma renegociação ou uma mudança do regime em Teerã. O mais provável é que isso termine numa guerra. O Plano de Ação Conjunta Global, como é conhecido o pacto, restringe o programa nuclear do Irã por vários anos e sujeita o país, permanentemente, a inspeções-surpresa, em troca da suspensão das sanções.

A decisão de Trump de retirar os EUA de um acordo que ele taxou de “decadente e deteriorado” atende a uma promessa de campanha. Mas o presidente se mostrou inesperadamente muito duro ao prometer não apenas restaurar as sanções, mas também ampliá-las, e punir qualquer empresa que negociar com o Irã, seja de onde for.

Com as Nações Unidas afirmando que o Irã vinha cumprindo as normas do acordo, o que mesmo seus críticos admitem, Trump intensifica os argumentos de seus inimigos de que os EUA não inspiram confiança e as regras globais que o país afirma defender são feitas para serem violadas. 

A questão levantada pelas outras partes envolvidas no acordo (Rússia, China, Alemanha, Grã-Bretanha, França e União Europeia) é esta: E agora? E quanto ao mundo todo, especialmente o Oriente Médio, a pergunta é: o que isso significa para a capacidade do Irã de obter uma bomba nuclear?

Em seu anúncio, na terça-feira, Trump ofereceu sua resposta. Afirmou que está “pronto, disposto e preparado” para negociar um novo acordo que limite a agressão regional do Irã e também suas armas nucleares, mas não propôs nenhum plano para um novo acordo. E também fez um apelo velado à população iraniana que é, segundo ele, “refém” do seu governo, para se insurgir contra seus opressores.

Essencialmente, o plano de Trump tem como base um palpite com relação às sanções. Em primeiro lugar, ele acha que, com punições mais duras, a economia iraniana não conseguirá financiar guerras no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. O problema é que a beligerância do Irã não resulta de um exercício de contabilidade. 

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Apesar dos protestos do ano passado, quando os iranianos exigiram que o governo aplicasse mais recursos internamente, o país financia soldados, milícias e terroristas porque almeja influência e se sente ameaçado. Trump partiu para a intimidação esta semana e pode ter deixado o Irã ainda mais decidido.

Em segundo lugar, ele acha que a agonia econômica decorrente de novas sanções obrigará o Irã a negociar, como ocorreu com a Coreia do Norte. Sanções mais severas podem, realmente, levar regimes a negociarem, como foi demonstrado pelo próprio Irã no acordo que Trump agora rejeita. Mas o presidente americano não tem muita percepção de como os líderes, cujo acordo ele acaba de renegar, vão se render totalmente às suas demandas e sobreviver ao mesmo tempo.

Talvez seja este o ponto. E sua aposta, na verdade, é que as sanções provocarão tamanho sofrimento econômico que derrubarão o governo. Os mulás não governarão o Irã para sempre. Mas os Castros, em Cuba, resistiram às sanções durante décadas. Os teocratas do Irã já provaram que estão dispostos a manter a ordem pela força.

Saudaríamos de bom grado o fim da beligerância iraniana e do próprio regime, mas um desejo com base em um palpite não é política. Pelo contrário, diante do provável fracasso da estratégia de Trump, as partes envolvidas no acordo devem fazer todo o possível para mantê-lo em vigor enquanto puderem. 

Um objetivo é mostrar a Trump e seus seguidores que as normas globais são importantes. A União Europeia deve, por exemplo, continuar a se reunir com as autoridades iranianas no caso de sanções americanas contra suas empresas, como fez há 20 anos, quando os Estados Unidos estabeleceram novas sanções no caso de Cuba. O outro objetivo é impedir que o Irã retome seu programa de armas nucleares.

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Mas, realisticamente, China e Rússia talvez não queiram tirar Trump do buraco que ele cavou para si e a União Europeia não conseguirá sozinha salvar o acordo. O dólar ainda é a moeda dominante (apesar de Trump certamente ter antecipado o dia em que a China fará os pagamentos globais em sua moeda, o yuan). As empresas, tendo opção de operar nos EUA ou no Irã, inevitavelmente escolherão o mercado maior.

Portanto, os ganhos de um acordo parcial serão desprezíveis e o Irã, cedo ou tarde, poderá retomar seu programa nuclear. O acordo protegia contra isso, com uma cláusula de aviso prévio e a possibilidade de restabelecer as sanções. Sem o acordo, o Irã pode querer voltar ao velho regime de inspeções limitadas, construir novas centrífugas, enriquecer urânio em grau que permita fabricar armas nucleares e miniaturizar ogivas. 

Se o programa iraniano for clandestino – literal e figurativamente –, poderá não haver inteligência suficiente para avaliar a ameaça. Além disso, com as sanções já chegando ao ponto máximo, Trump e seus sucessores terão escopo diplomático limitado para frear o Irã. Assim, terão de recorrer à ação militar.

Você não vai travar uma guerra com o Irã levianamente – Trump entrará em guerra em razão de algumas centrífugas a mais? O Irã conseguiria sigilosamente transpor o umbral nuclear. E, ao contrário dos programas iraquiano e sírio, a existência de um know-how e uma capacidade industrial do Irã não pode ser bombardeada. Se o Irã estiver determinado a obter uma bomba, EUA e Israel terão de bombardear o país periodicamente. Como justificar isso? É difícil pensar em algum presidente anterior relegando um acordo com base em probabilidades tão precárias com um custo tão grande. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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