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Tom Pennington/Getty Images/AFP

'The Economist': Hora de cortar as asas do fanfarrão

Donald Trump não dispõe das credenciais para liderar um dos mais importantes partidos políticos do mundo

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The Economist,
O Estado de S. Paulo

28 Fevereiro 2016 | 07h00

Em questão de dias, a disputa que definirá o candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos pode estar praticamente decidida. Donald Trump já venceu três das quatro primeiras prévias. No dia 1.º ocorre a chamada Superterça, quando outros 12 Estados realizarão suas primárias. Donald Trump lidera as pesquisas de intenção de voto em nove deles. 

Mesmo que os institutos de pesquisa acertem em suas previsões, como têm feito até agora, ainda não será o bastante para que o bilionário possa ser considerado imbatível: não terão ido completamente por terra as chances de que outro candidato conquiste número suficiente de delegados para derrotá-lo. 

Para tanto, porém, será preciso que o atual líder da disputa seja vítima de um derrocada espetacular – um colapso de proporções nunca vistas – na reta final da campanha. Por ora, Trump tem a indicação na mão.

Aprovação. O pior é que a coisa pode não parar por aí. As pesquisas revelam que 46% dos eleitores americanos têm opinião “muito negativa” sobre Trump, o que sugere serem reduzidas suas chances de vencer as eleições propriamente ditas. 

Ocorre que a “persona” política encarnada por Trump é muito mais maleável do que a de qualquer político profissional, o que significa que ele pode transformá-la no que bem entender. E quem quer que esteja na cabeça da chapa de um dos dois partidos tem boas chances de se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos: as últimas eleições foram decididas por pequenas margens em poucos Estados. 

Quando os institutos de pesquisa perguntam aos eleitores em quem eles votariam se a votação de novembro fosse disputada por Trump e Hillary Clinton, a favorita para obter a candidatura presidencial do Partido Democrata vence por menos de 3 pontos porcentuais – diferença que Trump teria tempo de sobra para reverter. 

Indiciamento. Uma economia novamente em recessão ou um indiciamento de Hillary (por ter utilizado uma conta de e-mail pessoal ao exercer o cargo de secretária de Estado dos Estados Unidos) poderia colocar o magnata na Casa Branca.

Seria o cúmulo. As coisas que Trump vem dizendo na campanha o desabonam para ocupar a liderança de um dos mais importantes partidos políticos do mundo e o tornam indigno de exercer a presidência dos Estados Unidos. Avaliar um político implica, entre outras coisas, verificar se ele apela ao que há de melhor em nossas naturezas: Trump chegou onde chegou incitando ao ódio e à violência. É alguém tão imprevisível que vê-lo se aproximando da cadeira presidencial constitui, por si só, uma experiência aterradora. É preciso interromper seu avanço.

Indiferença. Cada novo disparate que sai da boca de Donald Trump parece um pouco menos chocante que o anterior. Assim, corre-se o risco de que as pessoas fiquem anestesiadas e passem a reagir com indiferença a seus impropérios. 

Recapitulando: o bilionário já se referiu aos mexicanos que cruzam a fronteira como estupradores, defendeu com entusiasmo o uso de técnicas de tortura, insinuou que o juiz Antonin Scalia, da Suprema Corte, foi assassinado, propôs impedir a entrada de muçulmanos nos EUA, sugeriu matar os parentes de terroristas e repetiu, em tom laudatório, a invencionice de que, há cem anos, na Guerra Filipino-Americana, soldados dos EUA teriam mergulhado sua munição no sangue de suínos antes de executar um grupo de rebeldes muçulmanos. 

Recentemente, em um comício realizado em Nevada, Trump chegou a dizer que gostaria de dar um murro na cara de um manifestante que estava protestando contra sua candidatura. A lista está longe de ser exaustiva.

Fantasia. Uma das únicas medidas que Trump subscreve com clareza não passa de fantasia: a construção de um muro ao longo da fronteira dos EUA com o México – paga pelos mexicanos. O que o pré-candidato faria diante de uma crise no Mar do Sul da China, de um atentado terrorista em solo americano, de outro colapso do sistema financeiro? Ninguém tem a menor ideia. 

Trump talvez seja um candidato especialmente talhado para uma disputa como a das primárias americanas, em que os eleitores refletem muito imperfeitamente o país como um todo, mas é difícil imaginar um candidato menos talhado para se lidar com a principal consequência de uma vitória nas eleições gerais: governar.

A cada vitória do bilionário, tornam-se mais insistentes as vozes que tentam criar pontes entre ele e o establishment republicano. O bilionário já recebeu o apoio de alguns congressistas do partido. 

Na esquerda, há quem diga que, em questões sociais e econômicas, Trump é menos conservador do que alguns de seus adversários (afirmação que vem acompanhada da esperança de que, depois de conquistar a indicação republicana, ele leve uma surra de Hillary nas eleições gerais). 

Na direita, há quem argumente que Trump está apenas representando um papel, esfregando um pouco de pimenta no nariz dos politicamente corretos. 

No fundo, ele seria apenas um empresário nova-iorquino, movido pelo pragmatismo e afeito a fazer acordos. Caso vença as primárias, prossegue o raciocínio, Trump acabaria se deixando intimidar, se cercaria de assessores e acataria suas recomendações.

Trata-se de pura especulação, sem respaldo na realidade, daqueles que querem que seu lado vença a qualquer custo. Não há nada na carreira de Trump – durante a qual ele sempre comandou sua empresa familiar com rédea curta, seguindo, na maioria das vezes, o que lhe ditava a intuição – que permita supor que ele de repente se transformaria num presidente ajuizado, criterioso, sempre inclinado a ouvir os conselhos de especialistas tarimbados. 

Para quem ainda não percebeu: se há um problema que Trump não tem é insegurança em relação a suas opiniões.

Rivais. Os senadores Ted Cruz e Marco Rubio, que, entre os demais pré-candidatos, são os que mais têm chances de derrotar Trump, passaram tempo demais evitando críticas ao bilionário, na esperança de conquistar seus eleitores mais tarde. 

As primárias americanas às vezes parecem um circo, mas também se prestam a testar a capacidade de liderança e a coragem dos candidatos. Até agora, ambos foram reprovados nesses quesitos. Em vez de se render à paralisia, atônitos com o que está acontecendo com o partido, os republicanos têm de partir para a briga com Trump.

Mais de 60 milhões de pessoas votaram em Mitt Romney em 2012. São, em sua vasta maioria, indivíduos íntegros, tolerantes e de bom coração, que têm horror à política movida por violência, intolerância e mentiras. Os conservadores bem-intencionados ficarão inconsoláveis se em novembro tiverem de escolher entre um xenófobo raivoso e uma democrata.

Se The Economist pudesse ter votado nas primárias republicanas de Iowa, New Hampshire, Carolina do Sul ou Nevada, a revista teria apoiado John Kasich. O currículo do governador de Ohio apresenta uma mescla interessante de experiências, no Congresso e em seu Estado natal, assim como na iniciativa privada. 

Ele também foi corajoso ao expandir o atendimento do Medicaid (programa de saúde para indivíduos de baixa renda) em Ohio, mesmo sabendo que isso provavelmente o prejudicaria nas primárias, como de fato prejudicou. Mas esse não é mais o partido de Kasich. Apesar de seu bom desempenho em New Hampshire, onde terminou em segundo lugar, o governador é o candidato preferido de menos de 10% dos eleitores republicanos.

Se a campanha continuar tão dividida como agora, é possível que Trump vença com uma maioria simples dos votos. Para impedir que isso aconteça, é preciso haver mais desistências. 

Embora ainda não estejamos convencidos das qualificações de Rubio, o senador da Flórida é o pré-candidato que reúne mais condições de derrotar Donald Trump. Todos os outros – incluindo Ted Cruz, que equivocadamente vê a si mesmo como o único capaz de vencer o bilionário – têm de deixar o terreno livre para Rubio. Caso isso não aconteça, é provável que em pouco tempo seja tarde demais para impedir que o partido de Abraham Lincoln venha a ser conduzido, numa eleição presidencial, por Donald Trump. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

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