Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

The Economist: O governo de Trump é tão ruim como se pinta?

Presidente não parece mais louco do que era ao ser eleito e deve ser avaliado pelo que realmente fez; até agora, foi mal

O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2018 | 05h30

Quase um ano de Donald Trump na presidência dos EUA e você tem de se beliscar para encontrar sentido em tudo. Em Fogo e Fúria, livro de Michael Wolff sobre os mexericos da Casa Branca, o líder do mundo livre é retratado como um imperador infantil egoísta, encarado pela própria equipe como inadequado para o cargo. 

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Os Estados Unidos estão envolvidos em um debate sobre a sanidade do presidente. Aparentemente incapaz de se conter, Trump estimula as chamas, indo ao Twitter para contar vantagens sobre seu “gênio estável” e, em uma ameaça à Coreia do Norte, gabar-se do tamanho impressionante de seu botão nuclear.

É preciso ser compulsivo para acompanhar o que Trump faz. Quem nunca aguardou, sentindo-se culpado, pelo próximo tuíte com horrorizada antecipação? Dado o peso que repousa sobre os ombros do homem e como ele é inadequado para o cargo, o foco no personagem de Trump é compreensível e necessário. No entanto, como registro de sua presidência até agora, também é incompleto e uma distração perigosa.

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É incompleto porque, em primeiro lugar, a economia americana está em boas condições e cresceu 3,2% no terceiro trimestre. O aumento dos salários do operariado supera o restante da economia. Desde a saída de Barack Obama, o desemprego continuou a cair e o mercado de ações a subir. 

Trump tem sorte – a economia mundial desfruta de seu maior crescimento desde 2010. No entanto, ele fez sua sorte ao convencer o mundo corporativo americano de que está a seu lado. Para muitos, especialmente aqueles decepcionados com Washington, não parecem verdadeiras as profecias sobre uma ameaça iminente a todo o país vinda de Trump.

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Apesar de sua campanha barulhenta, Trump não viabilizou suas piores ameaças. Como candidato, falou sobre impor tarifas de 45% sobre todos os produtos chineses e reescrever ou abandonar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte com o Canadá e o México (Nafta). Pode ser que, em breve, haja problemas nas duas frentes, mas não na escala original. 

Ele também chamou a Otan de obsoleta e propôs a deportação em massa de 11 milhões de imigrantes ilegais. Até agora, no entanto, a aliança atlântica se mantém de pé e o nível de deportações, nos últimos 12 meses, não foi muito diferente de anos anteriores.

No Congresso. No cargo, as realizações legislativas de Trump foram modestas e diversificadas. Uma reforma tributária que reduziu impostos e simplificou algumas das normas parece ter significado um atraso. Sua antipatia pelas regulamentações revigorou a confiança do consumidor, mas a um custo desconhecido para o meio ambiente e para a saúde humana. Sua proposta de saída do acordo climático de Paris e da incipiente Parceria Transpacífico (TPP) foi uma bobagem, mas dificilmente além dos limites do pensamento republicano.

Seu oportunismo e sua falta de princípios, embora vergonhosos, podem ainda significar que ele esteja mais aberto a acordos do que a maioria de seus predecessores. Só nesta semana, ele combinou um rígido plano para expulsar os salvadorenhos que têm direitos temporários para morar e trabalhar nos EUA com a desculpa de realizar uma ampla reforma da imigração. Ele também disse que vai a Davos, onde entrará em contato com os defensores da globalização.

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O perigo do caráter obsessivo de Trump é que isso tire a atenção da necessidade de mudanças profundas no modo de se governar os EUA. A burocracia tem um número tão reduzido de funcionários que depende de empresários para que sejam esboçadas políticas públicas. Foram eles que moldaram as desregulamentações e as cláusulas inseridas na nova legislação tributária, que passam os custos – antes dos acionistas – para a sociedade. 

Como os republicanos do Senado confirmaram poucos juízes nos últimos dois anos de Obama, Trump está agora levando o Poder Judiciário de forma dramática para a direita. A indignação impede a solução do verdadeiro problema de Washington: o “poder do pântano” (que Trump prometeu drenar, referindo-se ao establishment) e sua desconexão dos eleitores comuns.

Balanço

Como escrevemos repetidamente no ano passado, Trump é um homem com falhas profundas, sem o juízo ou o temperamento para liderar um grande país. Os Estados Unidos estão sendo prejudicados por sua presidência. Mas, depois de um certo ponto, bater na tecla de sua inaptidão acaba se tornando um exercício de realização de desejos, porque por trás de tudo está a vontade de que ele seja destituído do cargo. 

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Por enquanto, isso é uma fantasia. A investigação de Robert Mueller sobre o conluio de sua campanha com a Rússia deve seguir seu curso. Só então os EUA poderão avaliar se a conduta do presidente passará o teste do impeachment. Expulsar Trump recorrendo à 25.ª Emenda, como alguns preferem, seria ainda mais difícil. O tipo de incapacidade que os autores do texto constitucional tinham em mente era uma espécie de coma de John F. Kennedy, caso ele tivesse sobrevivido a seu assassinato. 

É impossível diagnosticar à distância o estado mental de Trump, mas ele não parece estar mais louco do que quando os eleitores o escolheram. A menos que ele não possa mais se reconhecer no espelho (no caso de Trump, este certamente seria um dos últimos de seus poderes a desaparecer), nem seu gabinete nem o Congresso votarão por sua saída.

Nem deveriam. O estado de alarme pelo vandalismo de Trump com a dignidade e as normas da presidência traz bons e maus resultados. Se fosse simples para um grupo de iniciantes de Washington remover um presidente usando a 25.ª Emenda, a democracia americana estaria desviando-se para a oligarquia. 

A pressa em condenar ou exonerar Trump antes de Mueller terminar seu inquérito politiza a Justiça. Cada vez que os críticos de Trump sobrepõem o objetivo de pará-lo aos meios para fazê-lo, alimentam a polarização e ajudam a criar um precedente que algum dia será usado contra um bom presidente lutando por uma causa digna, mas impopular.

Análise

Essa lógica também é válida para a Coreia do Norte. Trump não é o primeiro presidente a suscitar dúvidas sobre quem pode apertar o botão nuclear – considere o alcoolismo de Richard Nixon ou a dependência de JFK de analgésicos, drogas contra a ansiedade e, durante a crise dos mísseis cubanos, um antipsicótico. Afastar Trump e confiar na intuição de que ele seja mentalmente instável chega a parecer um golpe. 

Trump foi um mau presidente em seu primeiro ano. No segundo, ele pode causar graves danos aos Estados Unidos. No entanto, a novela presidencial é uma distração. Ele e seu governo devem ser analisados corretamente para que prestem contas pelo que realmente fizeram. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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