AP Photo/Alex Brandon
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The Economist: O pensamento tribal invade a política americana

Ideia de que EUA voltarão à normalidade após saída de Trump é perspectiva pouco provável

The Economist, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2017 | 05h00

“Hoje é mais um lindo dia sob o governo do presidente Trump! Por favor, deixe a sua mensagem”, diz a secretária eletrônica do Clube Republicano de Palm Beach, situado numa avenida ladeada por palmeiras, com um amplo cruzamento numa extremidade e o azul-turquesa do Oceano Atlântico na outra. 

Se Mar-a-Lago atualmente é o Palácio de Versailles dos EUA, Palm Beach é o vilarejo que se esparrama a seus pés. Mas não se observam sinais de opressão nas redondezas. Pelo contrário, na vizinha West Palm Beach há uma concessionária McLaren e a polícia patrulha as ruas de bicicleta.

Nada poderia ser mais diferente de Palm Beach do que a zona rural do Kansas. No entanto, em ambos os lugares, os eleitores de Trump falam coisas muito parecidas a respeito do presidente americano: o homem é um empresário, está no caminho certo, o problema é o Congresso, a mídia tenta fazê-lo parecer um sujeito do mal, coisa que ele não é, e, além do mais, o país estava um desastre com Obama na Casa Branca. The Economist esteve recentemente nos Estados de Virgínia Ocidental, Georgia, Alabama e Flórida, onde conversou com prefeitos de pequenas cidades, líderes republicanos locais e cidadãos comuns que votaram em Trump. Nessas conversas, nenhum dos entrevistados falou espontaneamente sobre o escândalo da interferência russa na eleição presidencial do ano passado e foram pouquíssimos os que se disseram arrependidos do voto que depositaram nas urnas.

Há 50 anos, a renda dos eleitores era um fator que permitia prever, com razoável precisão, em quem eles votariam. Não é mais assim. Dos campos de golfe da Flórida à depauperada zona rural da Costa Leste, dos subúrbios operários do Meio Oeste às mansões da Califórnia, as tribos que formam a base de apoio do presidente são aglutinadas por algo poderoso, que pouco tem a ver com sua condição econômica.

Nem todo mundo nos EUA pensa estar vivendo dias lindos sob o governo de Donald Trump, claro. Muitos dos que acompanharam seus primeiros meses na Casa Branca chegaram à conclusão de que o republicano é uma ameaça à democracia do país. No entanto, cerca de 40% dos eleitores americanos – aproximadamente 50 milhões de pessoas – presenciaram os mesmos acontecimentos e, ao que tudo indica, gostaram do que viram. Segundo o instituto Gallup, trata-se da mesma fatia do eleitorado que, uma semana após a posse de Trump, aprovava o desempenho do presidente. Passados cinco meses, esses indivíduos não parecem tão entusiasmados quanto antes, mas a aprovação global do republicano sofreu recuo de apenas alguns pontos porcentuais.

Entre esse segmento do eleitorado, metade apoia Trump vigorosamente e diz estar com o presidente aconteça o que acontecer. É a mesma proporção de eleitores – cerca de 20% – que, segundo o instituto YouGov, não se incomodam que o republicano nomeie parentes seus para cargos na Casa Branca. Assim, o futuro do presidente está nas mãos dos eleitores que fazem sua aprovação subir de 20% para quase 40%.

 

Caminhos.

Compreendendo-se como essas pessoas enxergam a política, e identificando-se os elementos que podem fazê-las mudar de posicionamento, é possível mensurar a extensão do apoio a Trump, ou, como diriam seus detratores, avaliar até que ponto ele conseguirá sobreviver aos escândalos que marcam seu governo.

A primeira coisa a se observar é que, para a maioria dos eleitores, a política é um assunto sem maior interesse. As pessoas que acompanham a política de perto acham que todo mundo é como elas, mas estão enganadas. Segundo o American National Election Study (Anes), um vasto levantamento de opinião realizado em março pelas universidades de Stanford e Michigan, 94% dos eleitores de Trump não compareceram a nenhum comício e não assistiram a nenhum discurso no ano passado. Entre os eleitores de Hillary Clinton, a proporção de “alienados” é um pouco menor: 90%. 

O Anes é considerado o estudo mais rigoroso sobre o que passa pela cabeça dos americanos quando eles comparecem às urnas. Cerca de 20% dizem se interessar bastante por política; é nesse contingente que costumam estar os conservadores ou progressistas mais convictos. Para o restante das pessoas, as questões políticas são pouco mais que “uma atração menor no grande circo da vida”, como diz o cientista político Robert Dahl em Who Governs? (“Quem Governa?”), obra publicada em 1961. A afirmação continua verdadeira. Os americanos não confiam muito no governo e acham que políticos costumam mentir; para 31% dos eleitores de Trump, e 36% dos que votaram em Hillary, o governo americano “provavelmente” ou “certamente” tinha conhecimento prévio dos atentados terroristas do 11 de Setembro.

E como a maioria dos eleitores decide seu voto? A ideia de que a pessoa identifica as questões em jogo, determina quais lhe parecem mais importantes, seleciona o candidato que se aproxima mais de suas posições e vota no sujeito não passa de fantasia. Em Democracy for Realists (Democracia para Realistas, em tradução livre), mais influente obra sobre comportamento eleitoral publicada nos últimos tempos, Christopher Achen e Larry Bartels mostram que, com frequência, é o oposto disso que acontece: o eleitor escolhe o candidato de que mais gosta e passa a atribuir a ele, muitas vezes de forma equivocada, seus próprios posicionamentos. 

Nos levantamentos feitos sempre que há uma eleição presidencial nos EUA, o Anes pede aos eleitores que se posicionem num espectro delimitado, em sua extremidade esquerda, pela expressão “ampliar em muito os serviços públicos”, e, em seu ponto mais à direita, pela frase “reduzir em muito os gastos públicos”. Em seguida, o indivíduo é convidado a posicionar os dois principais partidos políticos no mesmo contínuo. Cerca de 15% dos entrevistados não sabem se posicionar ou dizem que nunca pensaram no assunto. Outros 15%, aproximadamente, posicionam-se no espectro, mas não conseguem fazer o mesmo com os partidos. Isso significa que 30% do eleitorado americano não tem muita clareza sobre o que republicanos e democratas pensam sobre o papel do Estado.

Além disso, número expressivo dos entrevistados que posicionaram os dois partidos no espectro mostrou ter compreensão bastante limitada sobre a filosofia de governo de cada agremiação. Depois da eleição, os democratas se mostraram inconformados com a perda de 80 mil votos nos Estados de Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, que deram a Trump a vitória no colégio eleitoral. Chegaram a cogitar que o anúncio, feito a menos de duas semanas da eleição, de que o FBI voltaria a investigar o caso dos e-mails de Hillary teria determinado o resultado do pleito. Mas é muito maior o número de eleitores que revela não saber muito bem quais são as principais bandeiras dos dois partidos.

O Anes também pede que os eleitores digam qual das duas agremiações é mais conservadora. Cerca de 15% dos eleitores de Trump afirmam que é o Partido Democrata, opinião compartilhada por 6% dos eleitores de Hillary. Some-se a isso o porcentual dos que não souberam responder e o que se tem é que 16% dos que votaram em Hillary e 24% dos que votaram em Trump não sabem ao certo qual dos dois principais partidos é mais conservador.

Contradição.

Como entender isso num país em que se observa tamanha polarização entre conservadores e progressistas? A única explicação plausível é que, em vez de escolher o partido que melhor se encaixa em seu posicionamento político, grande número de pessoas utiliza outros critérios para determinar sua preferência partidária. Às vezes, os eleitores imaginam que um dos partidos se alinha a sua visão de mundo quando isso não é verdade.

Outras vezes, adaptam suas posições para que estejam de acordo com o candidato ou partido de sua preferência. Isso pode acontecer mesmo se tratando de temas que as pessoas consideram inegociáveis. É o caso, por exemplo, da questão do aborto. Segundo análise que Achen e Bartels realizam dos resultados de um estudo em que os mesmos eleitores são entrevistados ano após ano, cerca de metade dos homens que em 1982 se diziam contrários ao aborto e votavam em candidatos democratas tinha mudado de opinião 15 anos depois, de maneira a se alinhar com o posicionamento de seu partido de preferência. Mais recentemente, reviravolta semelhante pôde ser observada entre os eleitores evangélicos e brancos, que votaram em Trump na mesma proporção que haviam votado no evangélico e branco George W. Bush. 

Em 2011, esses eram os eleitores que mais frequentemente afirmavam que princípios morais eram a coisa mais importante num presidente. Depois que Trump – com seus três casamentos e sabe-se lá quantos casos extraconjugais – chegou à Casa Branca, evangélicos brancos são os que menos tendem a dar importância para a questão.

É comum atribuir tudo que acontece de errado em Washington à polarização entre republicanos e democratas. No entanto, o que torna essa polarização tão onipresente é, em grande medida, o fato de ela servir como excelente atalho mental. Considere-se a revogação do Obamacare pela Câmara dos Deputados, diz Bartels. A medida deve ter grande impacto na vida das pessoas, mas determinar a extensão desse impacto levando em conta as constantes mudanças nas condições sociais, o mercado dos planos de saúde e a tecnologia médica seria tarefa espinhosa até para economistas especializados, quanto mais para um eleitor apenas razoavelmente bem informado. “Então, por que não aceitar a opinião de pessoas em quem você confia?”

Esse tipo de pensamento de grupo é tão poderoso que acaba moldando a visão que a população tem do mundo a seu redor. Logo depois da eleição, e mais de dois meses antes de Trump assumir a presidência, os eleitores republicanos diziam aos institutos de pesquisa que sua situação financeira estava muito melhor do que uma semana antes do pleito. Fenômeno inverso foi relatado pelos democratas. Mesmo que a questão não tivesse nada a ver com política, as respostas dadas pelos entrevistados foram de certa forma condicionadas pela eleição. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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