Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Tráfico de mulheres da Nigéria alimenta redes de exploração sexual na Europa

Autoridades italianas creem que prostituição forçada tornou-se endêmica entre maioria das africanas levadas para cidades europeias por grupos criminosos; organização estima que 80% das nigerianas que entram ilegalmente na Itália sejam potenciais vítimas 

Jamil Chade, Enviado Especial / Asti, Itália, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 05h00

As autoridades italianas estão convencidas de que casos de exploração sexual passaram a ser endêmicos entre as imigrantes africanas que entram ilegalmente no país. Um levantamento feito pela Organização Internacional para Migrações (OIM) revelou que 80% das mulheres e meninas nigerianas que cruzam o Mediterrâneo são vítimas do crime organizado nas grandes cidades europeias. 

As primeiras investigações de procuradores italianos sobre a ação dessas redes começaram em 2014, quando eles perceberam que muitas das meninas que desembarcaram simplesmente sumiam dos radares dos serviços sociais. 

Pouco a pouco, o que se descobriu era que o recrutamento ocorria já nos centros de acolhida, no sul da Itália, praticamente diante das autoridades. De acordo com as investigações do procurador da Sicília, Salvatore Vella, antes de sair de seus vilarejos, cada uma das mulheres recebia um telefone. Uma vez na Itália, eram instruídas a ligar o aparelho e esperar pela chamada. Do outro lado da linha estavam os organizadores da rede criminosa na Europa, que recuperavam o “produto”. 

Ao contrário dos homens que tentam deixar a África, essas meninas são informadas de que não precisam pagar imediatamente pela viagem, pois assim que estivessem trabalhando, supostamente em salões de beleza ou como domésticas, usariam o salário para quitar a dívida. 

Mas, quando chegam à Itália, elas são informadas de que a conta chegaria a valores que variam entre € 40 mil e € 60 mil e o emprego, na verdade, era uma farsa. O padrão se repete em cada um dos casos identificados pela polícia.

Com as meninas já na Europa, os grupos criminosos passam a exigir que o pagamento ocorra com serviços de prostituição, em beira de estradas e em prostíbulos ilegais nas periferias das cidades europeias. 

Na estrada provincial, entre as cidades de Asti e Alessandria, o Estado encontrou duas nigerianas que, num calor de 38 graus, esperavam por seus clientes diante de propriedades agrícolas da região. Uma delas sugeria que o programa ocorresse ali mesmo. “Não podemos sair daqui”, justificou. Ao ver que não teriam trabalho, uma delas ofereceu reduzir o preço do serviço pela metade, apenas € 25.

O crime é tão organizado que chega a definir quais são as estradas secundárias que vão ser ocupadas por africanas, por meninas no Leste Europeu ou por asiáticas. 

Algumas tentam engravidar, para frear a prostituição de seus corpos. No entanto, assim que o grupo criminoso percebe a gravidez, obriga a menina a tomar remédios que a farão sangrar até abortar. 

Para as autoridades, o que surpreende é a dimensão que esse fluxo organizado por grupos criminosos ganhou. Entre 2014 e 2017, o número de mulheres nigerianas que chegam à Europa aumentou de forma expressiva, passando de 1,4 mil para mais de 11 mil. Apenas nos seis primeiros meses de 2017, foi registrada na Itália a chegada de 4 mil nigerianas. 

“Temos registrado um aumento das chegadas de vítimas do tráfico nesses três anos e sabemos que 80% são potenciais vítimas”, afirmou o porta-voz da OIM na Itália, Flavio de Giacomo. “Algumas são tão jovens que nem sabem o que é sexo ou prostituição”, contou. 

Medo. Tanto as autoridades quanto as associações afirmam que o maior obstáculo para romper a exploração é o temor que as meninas têm dos grupos criminosos. “O pavor de uma retaliação é o maior obstáculo para tirarmos essas meninas do crime organizado”, contou à reportagem Fatima Issah, ex-vítima do tráfico de mulheres africanas que hoje é uma das principais vozes da entidade Piam (Progetto Integrazione Accoglienza Migranti), que apoia as meninas que escapam dos grupos criminosos em Asti. 

“Esses grupos criminosos sequestraram sonhos de meninas”, atacou. “Sei do que estou falando”, insistiu. Fatima foi uma das vítimas do tráfico, mas se orgulha de dizer que escapou “no primeiro dia de trabalho”. Questionada se ela se sentia também ameaçada por fazer o trabalho de resgate das vítimas, a imigrante de Gana não quis entrar em detalhes. “Sabemos que estamos sob ameaça.” 

Nem todas as meninas que embarcam para a Europa desconhecem completamente seus destinos. No entanto, o que não sabem é que, além de prostitutas, serão tratadas como escravas. 

Marina, uma italiana que também trabalha na Piam, contou que hoje muitas famílias nigerianas sabem que suas filhas serão prostitutas na Europa quando recebem a proposta de deixar o vilarejo. No entanto, na esperança de obter dinheiro e diante do desespero local, optam por fechar os olhos para esse cenário e manter o discurso de que suas filhas trabalharão como empregadas domésticas, babás ou em salões de cabeleireiros na Europa.

 

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