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Visão Global; análises e comentários de especialistas

Tráfico de olho no diálogo de paz

- Atualizado: 04 Fevereiro 2016 | 07h 58

Governo colombiano combate clã Úsuga para impedir que ele recrute rebeldes das Farc

Enquanto o governo colombiano se aproxima do acordo para encerrar os 50 anos de conflito com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), se intensifica outra guerra nas florestas do país, ao longo da costa caribenha, bastião de uma sombria organização ligada às drogas conhecida como Clã Úsuga.

Há mais de um ano, soldados colombianos, treinados pelos Estados Unidos, caçam o líder do grupo, Darío Antonio Úsuga, também conhecido como Otoniel, numa campanha urgente para capturá-lo ou matá-lo antes que a trégua com as Farc seja assinada.

Tanto o governo quanto os traficantes sabem que uma grande parte do comércio bilionário de cocaína na Colômbia estará disponível se as Farc – cuja insurreição se sustenta com os lucros das drogas – sair do negócio. Alguns de seus 7 mil guerrilheiros, endurecidos pelos confrontos, podem estar procurando novos empregos. E o Clã Úsuga vai contratá-los.

“Não podemos ser ingênuos e pensar que o tráfico de drogas se encerrará com as Farc”, disse o general Jorge Rodríguez Peralta, comandante da divisão de forças especiais da polícia que combate o grupo. “Há muito dinheiro a ser ganho (com o negócio).”

A campanha contra o Clã Úsuga, chamada Operação Agamenon, é um indicativo dos temores colombiano e americano de que máfias se aproveitem do acordo de paz para restabelecer cartéis, no estilo do grupo comandado por Pablo Escobar, que podem prejudicar o estado de direito.

Garantir apoio complementar dos EUA para o combate ao narcotráfico estará na agenda do presidente Juan Manuel Santos, que visita hoje a Casa Branca para celebrar os 15 anos do Plano Colômbia.

O programa de US$ 10 bilhões, financiado pelo Congresso, é considerado por muitos republicanos e democratas como a maior realização de política externa americana da última geração, já que forçou as Farc a ir à mesa de negociação após meio século de violência que deixou mais de 220 mil mortos. O Legislativo americano aprovou ajuda de US$ 296 milhões para a Colômbia em 2016, uma pequena redução em relação ao ano passado.

O governo de Santos está tão determinado a enfraquecer o Clã Úsuga que está jogando o considerável poderio militar a Colômbia contra os traficantes. Os militares realizaram ataques aéreos contra dois acampamentos na floresta nas proximidades da fronteira com o Panamá no ano passado, matando 17 suspeitos com bombas guiadas por satélite.

Na época, autoridades colombianas justificaram o incomum uso de força afirmando crer na existência de guerrilhas nos acampamentos. Mas autoridades confirmam que buscam novas medidas legais para expandir o uso de poder aéreo letal contra Úsuga e outros chefes do submundo. “Estamos revendo nossas doutrinas de uso da força para garantir que populações civis serão protegidas e a tática possa ser usada apenas quando tivermos informações precisas”, disse Luis Carlos Villegas, ministro da Defesa da Colômbia.

Força. A organização Úsuga é, de longe, o consórcio criminoso mais poderoso do país, com entre 1.500 e 2.000 integrantes, presença em mais da metade do território colombiano e um arsenal que inclui morteiros, foguetes e minas terrestres. O grupo pode sobreviver tempo suficiente para ver as Farc se retirarem de cena, tendo em vista que as recompensas são lucrativas.

Autoridades dizem que as Farc estão num frenesi de produção de coca para acumular recursos antes de deixar o negócio sob os termos de um acordo de paz. Embora o uso de cocaína nos EUA venha caindo, o país continua a ser o maior consumidor mundial da droga e uma inundação de produto barato pode resultar numa nova onda de excesso de uso. O crescimento do uso da coca configura uma sangrenta competição pela participação de mercado das Farc – que é de pelo menos 60% do comércio de cocaína da Colômbia, segundo estimativas do governo. Santos tenta forçar a segunda maior guerrilha do país, o Exército de Libertação Nacional (ELN) a entrar nas conversações de paz, além de impedi-lo de entrar no mesmo jogo.

Algumas unidades das Farc subsistem graças à taxação dos produtores de coca e de contrabandistas, mas outros comandantes estão profundamente envolvidos no comércio da droga, afirmam autoridades. Estas são as unidades que mais despertam o temor das autoridades, pois têm contatos com líderes do Clã Úsuga e outros traficantes que buscam recrutá-los.

“Quem quer que assuma o comércio de drogas será mais eficiente do que as Farc”, disse Jeremy McDermott, consultor de segurança de Medellín e fundador do projeto InSight Crime, que estuda o crime organizado nas Américas. “Os rebeldes são assustadores no campo de batalha, mas não especialmente hábeis nos negócios”, declarou.

Por outro lado, o Clã Úsuga é uma rede altamente sofisticada cujos gerentes obtêm lucros a partir da extorsão, da mineração ilegal e do contrabando usando comunicação criptografada e empresas de fachada para lavar milhões em dinheiro do tráfico. “As Farc são amadoras em comparação com esses caras”, disse McDermott. “Agora, os profissionais vão assumir.”

Vácuo. Com a desaceleração do crescimento econômico da Colômbia em razão da baixa dos preços do petróleo, o embaixador americano Kevin Whitaker disse que os EUA devem intervir e ajudar o governo Santos a garantir que o acordo de paz ganhe apoio para uma forte atuação do Estado em áreas controladas pelas Farc, onde o governo há muito tempo está ausente.

A assistência americana pode fortalecer programas como a devolução de terras para vítimas do conflito e a substituição de coca por cultivos legais, enquanto assegura a continuidade da cooperação no setor de segurança entre as forças colombianas e a agência americana de combate às drogas, DEA, a CIA e outras agências dos EUA.

Com a iminência da assinatura de um acordo de paz entre o governo e as Farc, no final de março, “espero que o Congresso mantenha seu compromisso desde o primeiro dia”, declarou Whitaker, que já atuou em vários países da América Latina. “Com a Colômbia, temos o relacionamento mais próximo em termos de segurança que já vi em minha carreira.”

Clã Úsuga é o nome dado pelo governo para o grupo, mas nas ruas da Colômbia ele é conhecido como os Urabeños, em referência à exuberante região costeira de Ubara, perto da fronteira com o Panamá, que há décadas é corredor de contrabando. No ano passado, as autoridades apreenderam 15 toneladas de cocaína do grupo em Uraba.

Numa recente tarde, dezenas de comandos policiais lançaram uma ação contra um suposto mensageiro do Clã Úsuga, conhecido pelo apelido de “Batman”. Cercaram a cabana e o encontraram descalço e estendido numa rede, com duas crianças pequenas. Os agentes não encontraram drogas ou armas, mas suspeitaram dos 12 galos de briga de raça pura que estavam sob os cuidados de Batman, já que parecia ser um acervo de aves muito caro para um humilde produtor de bananas. Um oficial lembrou que Úsuga gosta de briga de galos e provavelmente eles eram dele.

O próprio Úsuga é produto de tentativas fracassadas do governo de negociar o desarmamento de grupos radicais. Quando jovem, se juntou ao Exército de Libertação Popular, um pequeno grupo guerrilheiro de esquerda que concordou em entregar armas em 1991.Quando unidades das Farc se mudaram para Uraba e caçaram ex-integrantes do grupo, Úsuga se uniu a um movimento paramilitar para expulsar a guerrilha.

Os paramilitares também prosperaram com os lucros da cocaína. Quando eles fizeram um acordo de desarmamento com o governo, em 2006, Úsuga foi um dos comandantes que voltou para o negócio das drogas. Ele viveu em relativo conforto até o ano passado, fornecendo cocaína para traficantes mexicanos. Agora, ele está em fuga.  TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

*NICK MIROFF É JORNALISTA

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