REUTERS/Ammar Awad
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Tropeços de Trump no Oriente Médio

Se queriam fazer algo verdadeiramente inovador, EUA deveriam abrir duas embaixadas em Jerusalém e reconhecer a cidade como capital dos dois Estados

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 05h00

Jerusalém é tão celestial como mundana, santa e pecadora. “Das dez medidas de beleza que Deus deu ao mundo, nove delas foram para Jerusalém e uma para o restante”, diz o Talmud. Às vezes, no entanto, parece que das dez medidas de sofrimento que Deus deu ao mundo, nove foram para Jerusalém e uma para o restante. O geógrafo árabe medieval Al-Muqaddasi chamou a cidade de “uma tigela dourada cheia de escorpiões”.

Cenário: Mudar embaixada foi decisão política, não diplomática

Ao anunciar que os EUA reconhecem Jerusalém como a capital de Israel, o presidente Donald Trump afirmou estar honrando a democracia de Israel. Ele estava, como disse, simplesmente reconhecendo a realidade. Ele ainda busca a paz entre palestinos e israelenses. Na verdade, essa medida é como a desagradável picada de um escorpião.

Israel é um país incomum por ter uma capital que não é reconhecida pelo restante do mundo. Nenhuma nação mantém uma embaixada em Jerusalém. Essa singularidade é uma consequência da história. Depois de 1947, quando a ONU votou pela partilha da Palestina, Jerusalém foi declarada cidade internacional, nem parte do futuro Estado judeu nem do árabe.

Mas, na guerra subsequente, Israel e a Jordânia dividiram a cidade. Duas décadas depois, na guerra de 1967, Israel capturou e anexou Jerusalém Oriental. Os residentes árabes receberam um status especial, mas projetos de construção, políticas populacionais e, posteriormente, a barreira de segurança serviram para fortalecer os judeus em sua “capital eterna e indivisível”.

Os Acordos de Oslo de 1993, que criaram uma Autoridade Palestina autônoma, deixaram o status de Jerusalém como uma das várias questões a serem resolvidas em uma paz permanente entre Israel e palestinos.

A Casa Branca e a arte do desapego

O Congresso americano pediu que a embaixada fosse transferida para Jerusalém e os candidatos presidenciais muitas vezes prometeram fazer isso. Mas, no cargo, eles sempre encontraram razões para adiar. Agora, Trump alega que traz um “pensamento inovador” para o Oriente Médio: “Julguei que essa decisão é do interesse dos EUA e da paz entre Israel e os palestinos”. Algo que também não ajudará.

 

Para começar, é uma admissão de fracasso. Trump está prejulgando o resultado final do “acordo definitivo” da paz que ele afirma buscar. Ele deu a Israel o prêmio de reconhecimento sem exigir nada em troca e não menciona o direito dos palestinos à condição de Estado. Isso enfraquece sua influência e a afirmação de que os EUA são um mediador justo.

Em segundo lugar, Trump desacreditou ainda mais o já débil presidente palestino, Mahmoud Abbas, e todos aqueles que argumentam que as aspirações palestinas podem ser atendidas pela negociação em vez da violência. Em terceiro lugar, ele constrangeu os aliados árabes e tornou mais difícil para eles avançarem em direção a uma aliança de fato com Israel para neutralizar uma expansão da influência do Irã no Oriente Médio.

Trump talvez calcule que os regimes árabes estejam muito preocupados com outras crises para se incomodar com a Palestina, que os palestinos estão divididos demais para se dedicar a isso. Mas, mesmo que a perspectiva de um levante seja velada, Trump inutilmente se arrisca a alimentar a violência.

Trump esforça-se para dizer que os EUA aceitarão qualquer acordo futuro sobre Jerusalém com o qual Israel e os palestinos possam concordar. Na prática, os EUA, como a maioria dos outros países, já tratam Jerusalém como a capital de Israel. Seus diplomatas e políticos encontram-se regularmente com ministros israelenses em Jerusalém. No entanto, se o reconhecimento faz pouca diferença prática, por que Trump se importa com ele?

Trump deveria ter sido aconselhado a não tocar em Jerusalém. Isso deveria ser deixado para um acordo final de paz. Mas, se ele precisa agitar as coisas, então deve aumentar seu radicalismo: não abrir uma embaixada em Jerusalém, mas duas. Uma gerenciaria os laços com Israel e a outra, em Jerusalém Oriental, trataria com o Estado palestino, que ele também deveria reconhecer. Duas embaixadas para dois Estados e dois povos: isso seria um pensamento verdadeiramente inovador. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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