AP/Andrew Harnik
AP/Andrew Harnik

Trump admite que sabia de mentira de ex-assessor de Segurança ao FBI

Tuíte de presidente dizendo que foi obrigado a demitir Flynn por ter mentido provoca acusações de obstrução de justiça; líder nega ter pedido ao então diretor da polícia federal que encerrasse a investigação sobre o general e a interferência russa na eleição

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 20h40

O presidente Donald Trump foi alvo ontem de acusações de obstrução de justiça ao indicar em um tuíte que tinha conhecimento de que seu então conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, havia mentido ao FBI. Trump disse ontem que nunca pediu ao ex-diretor do FBI James Comey para abandonar a investigação sobre Flynn, que na sexta-feira fechou um acordo de delação premiada no caso sobre a interferência da Rússia nas eleições americanas.

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Em depoimento que deu ao Congresso sob juramento junho, Comey sustentou que Trump lhe pediu que encerrasse a investigação em relação a Flynn. O ex-diretor do FBI respaldou suas afirmações em anotações que fez após o encontro com o presidente, no dia 14 de fevereiro – notas de agentes costumam ser aceitas como provas pela Justiça dos EUA.

Trump contestou a versão de Comey um dia depois de ter publicado um tuíte que reforçou as suspeitas de que ele pode ter obstruído a Justiça ao tentar influenciar as investigações sobre a Rússia. “Tive de demitir o general Flynn, pois ele mentiu para o vice-presidente e para o FBI. Ele se declarou culpado por essas mentiras. É uma pena, pois suas ações durante a transição foram legais. Não havia nada a esconder!”, escreveu o presidente no sábado.

A declaração provocou uma onda de reações no Twitter. “Você está ADMITINDO que sabia que Flynn havia mentido para o FBI quando você pediu a Comey que recuasse em relação a Flynn?”, perguntou Walter Shaub, ex-diretor do Departamento de Ética Governamental da administração federal. “ISSO É OBSTRUÇÃO DE JUSTIÇA”, afirmou o senador democrata Ted Lieu. 

Segundo Comey, a conversa com o presidente ocorreu na Casa Branca, um dia após o afastamento de Flynn. Dois meses mais tarde, Comey foi demitido, antes de completar o mandato de dez anos para o qual havia sido nomeado pelo ex-presidente Barack Obama. O objetivo do mandato é manter a independência do responsável pelo FBI, a polícia federal americana.

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Diante da reação ao tuíte sobre as razões da demissão de Flynn, um dos advogados de Trump, John Dowd, disse ontem que ele foi o autor da mensagem publicada na conta pessoal do presidente. Shaub recebeu a declaração com ceticismo, especialmente porque o tuíte grafou de maneira equivocada um termo jurídico que o advogado deveria conhecer.

Suspeitas

 A demissão de Comey levou o Departamento de Justiça a nomear um procurador independente para investigar a suspeita de conspiração entre integrantes da campanha de Trump e cidadãos russos para prejudicar a candidatura da democrata Hillary Clinton, que era vista por Vladimir Putin como hostil a seus interesses.

O ocupante da Casa Branca sustenta que a investigação é um “embuste” alimentado pelos perdedores na disputa presidencial. Quando Flynn foi demitido, o governo tentou se distanciar de suas ações e descreveu seus contatos com o embaixador russo nos EUA, Sergey Kislyak, como iniciativas individuais. Essa versão foi contestada por Flynn em sua delação premiada, divulgada na sexta-feira.

Nela, o general da reserva afirma que foi orientado por comandantes da equipe de transição de Trump a discutir com o diplomata sanções impostas à Rússia pelo ex-presidente Barack Obama em retaliação à ingerência de Moscou nas eleições. O mesmo teria ocorrido em relação a discussões sobre votação de resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenou assentamentos israelenses em território palestino, aprovada em dezembro.

Reportagem publicada ontem pelo New York Times revelou que os temas foram discutidos em e-mails trocados entre chefes da equipe de transição. Em um dele, K.T. McFarland, assessora de Segurança Nacional, avalia que a eventual resposta de Moscou às sanções impostas por Obama dificultaria a redução da tensão entre os dois países. “Se há uma escalada de represálias, Trump terá dificuldade em melhorar as relações com a Rússia, que acabou de jogar a eleição dos EUA para ele”, escreveu ela, segundo o New York Times.

Críticas

Em uma série de tuítes ontem, o presidente também atacou o Departamento de Justiça, o FBI e sua ex-adversária na disputa presidencial. “Depois de anos de Comey no comando do FBI, com a investigação sobre a falsa e desonesta (Hillary) Clinton (e mais), sua reputação está em pedaços. O pior da história!”, tuitou.

O presidente também ressaltou o afastamento de um agente do FBI que trocou mensagens críticas a ele e simpáticas a Hillary com outro colega: “Um agente do FBI anti-Trump dirigiu a investigação dos e-mails de (Hillary) Clinton. Agora tudo começa a fazer sentido!”.

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