Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

Trump afugenta comércio na fronteira

Vendas em cidades entre Texas e México caem após posse do presidente americano

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / El Paso, Texas, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 05h00

EL PASO, TEXAS - De seu quiosque batizado de “El Oasis”, Eberth Chávez vê o movimento de pedestres que cruzam a fronteira de Ciudad Juárez, no México, para El Paso, onde são um dos principais motores do comércio local. Desde a posse de Donald Trump, há 101 dias, ele conta um número cada vez menor de pessoas que param para comprar sorvete, refrigerante, salgadinhos ou café no negócio que toca com a mulher.

Do outro lado da rua, uma loja fechou as portas há poucas semanas. Vizinhos do lado do “El Oasis” e da quadra seguinte se preparam para fazer o mesmo, atingidos por queda nas vendas superiores a 50%. Com fortes laços econômicos, culturais e familiares com o México, El Paso é uma das cidades americanas mais afetadas pelas propostas de Trump para a imigração e o comércio internacional. 

Grande parte da economia local depende do Nafta, o acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá que foi um dos principais alvos da campanha do bilionário à Casa Branca. Na quarta-feira, o peso mexicano se desvalorizou 2% quando assessores de Trump disseram que ele anunciaria a saída dos EUA do tratado, posição revertida ao fim do mesmo dia.

A perda do valor do peso em relação ao dólar e o endurecimento da política de imigração e de checagem na fronteira levaram muitos mexicanos a deixarem de fazer compras em El Paso, onde buscam produtos no atacado para revender em seu país. “Antes, isso aqui estava cheio de gente, mas agora as pontes estão vazias. As pessoas estão com medo da travessia”, disse Chávez, que nasceu há 56 anos em Ciudad Juárez e há mais de duas décadas vive do lado americano da fronteira.

“Antes de Trump, nós vendíamos uma média de US$ 1.500 por dia. Hoje, não passamos de US$ 600”, disse Tony Chico, que trabalha em uma loja de roupas e artigos de cama, mesa e banho. Segundo ele, o local vai fechar em razão da queda de movimento e os funcionários serão transferidos para outra empresa do mesmo dono. Sua colega Michelle Ibarra disse que se preocupa mais com o impacto das medidas econômicas de Trump do que com a proposta de construção de um muro para dividir os EUA do México.

 

Republicano histórico, Jon Barela disse ficar “consternado” com a retórica de Trump contra o Nafta. “O México é um aliado econômico dos EUA, não é um ladrão de empregos americanos”, afirmou o executivo, que desde outubro é CEO da Borderplex Alliance, uma entidade do setor privado dedicada ao desenvolvimento da região integrada por El Paso, Ciudad Juárez e Las Cruces, no Novo México, na qual vivem 2,7 milhões de pessoas. Segundo ele, essa é a maior área metropolitana binacional das Américas.

Barela observou que as ameaças do presidente de retirar os EUA do acordo comercial com México e Canadá criaram incerteza entre os empresários. “Vários projetos de investimentos e de contratação de funcionários foram adiados.” 

Estado no qual Trump venceu com 52% dos votos - Hillary Clinton obteve 43% -, o Texas está entre as regiões mais beneficiadas pelo Nafta. Estudo divulgado pelo Wilson Center, em novembro, mostrou que 382 mil empregos no Estado dependem do tratado, número inferior apenas aos 556 mil da Califórnia. O México foi o destino de 40% das exportações de US$ 233 bilhões do Texas em 2016, valor que superou o total do que o Brasil vendeu a outros países. 

Diretor executivo do Instituto Hunt, da Universidade do Texas em El Paso, Patrick Schaefer disse que a cidade está na histórica rota comercial que tradicionalmente ligou o México ao norte. Antes da chegada dos americanos, El Paso e a vizinha Ciudad Juárez foram colonizadas pelos espanhóis e formavam uma única comunidade. 

O espanhol é a língua predominante dos dois lados da fronteira e os latinos representam 80% da população de El Paso. “Por essa rota passam autopeças que alimentam as montadoras de carros americanas, imigrantes que atendem à demanda por mão de obra e drogas consumidas pelos usuários que vivem nos EUA”, observou Schaefer, que fez sua pós-graduação em Direito Comparado na Universidade de São Paulo.

Análise do Instituto Hunt indicou que a criação do Nafta, em 1994, foi acompanhada da redução do número de empregos industriais em El Paso, que chegou a ser conhecida como a capital mundial do jeans. Mas a maior parte das fábricas têxteis não foi transferida para o outro lado da fronteira, e sim para a China. “Esse movimento foi provocado pelo processo de globalização dos anos 90.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.