Trump, Capone e Nixon

O que costuma derrubar políticos não é o delito, mas sua ocultação, dizem nos círculos de poder dos EUA

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 05h00

O presidente americano Donald Trump afirmou, quando ainda era candidato ao cargo, que “poderia parar no meio da Quinta Avenida, em Manhattan, e atirar em alguém que ainda assim não perderia votos”. Provavelmente tinha razão então, e hoje, seguramente, ainda conta com um grande número de seguidores incondicionais. Mas isso não significa que ele seja invulnerável. Sua estadia na Casa Branca pode se ver truncada por uma maciça revolta política ou por um processo judicial que leve a sua destituição.

A segunda hipótese é mais provável que a primeira. É surpreendente a frequência com a qual, nos Estados Unidos, governadores, prefeitos, congressistas, membros do gabinete Executivo e altos funcionários públicos perdem o cargo por descumprir alguma lei. Nem mesmo presidentes ficam imunes a esses catastróficos acidentes legais.

São coisas que costumam ocorrer quando um político ou governante tenta encobrir um delito “menor” ou ocultar uma conduta que prejudique sua reputação. Ao tentar esconder algo estando sob juramento ele obstrui a Justiça, cometendo assim um delito mais grave que o que procurou ocultar. “O que derruba não é o delito, é sua ocultação.” Essa é uma frase que se ouve regularmente nos círculos do poder nos Estados Unidos (e é ignorada com surpreendente frequência).

Foi o que aconteceu com Richard Nixon, que renunciou antes de ser destituído por obstruir a Justiça quando tentou esconder sua participação no caso Watergate. Foi também o que se deu com Bill Clinton, acusado de mentir quando interrogado sob juramento sobre sua relação com Monica Lewinski. A Câmara dos Deputados votou pela destituição do presidente, mas o Senado o absolveu, permitindo-lhe terminar o mandato.

A mesma coisa acaba de acontecer com o governador do Alabama, Robert Bentley, forçado a renunciar ao ser acusado de mentir e usar recursos públicos para ocultar a relação extraconjugal que manteve com sua assessora política. Mais uma vez, foram os esforços para esconder a conduta, não a conduta em si, a causa da saída do poder. 

Foi ainda o que ocorreu com o general Michael Flynn, o conselheiro para a segurança nacional nomeado pelo presidente Trump. Flynn bateu o recorde de só durar 20 dias no cargo. Teve de renunciar quando se descobriu que suas conversas com o embaixador russo nos EUA haviam incluído a possibilidade de aliviar as sanções econômicas impostas à Rússia por invadir a Crimeia e agredir a Ucrânia. O diálogo com o diplomata russo não foi a causa da saída de Flynn, mas sim o fato de ele ter mentido sobre seu conteúdo.

Os casos do governador Bentley e do general Flynn são apenas exemplos desta semana e do mês passado, mas a lista de poderosos que caíram em desgraça ao tentar encobrir relações sexuais escandalosas, tráfico de influência, corrupção, uso indevido de recursos públicos ou responsabilidade em decisões erradas é incrivelmente longa. Seria bom para Donald Trump aprender a lição que vem dessa lista.

‘Seguir o dinheiro’. Outra lição à qual Trump deveria estar atento é a de que o dinheiro deixa pistas. Por esse motivo, “seguir o dinheiro” tornou-se outra frase popular em Washington. Estabelecer a origem, os intermediários, as contrapartidas e a movimentação de fundos é a melhor maneira de se chegar à vulnerabilidade dos poderosos. Nos Estados Unidos, relações sexuais escandalosas e manejo indevido de dinheiro são as razões mais frequentes pelas quais líderes políticos caem.

“Seguir o dinheiro” foi a ordem que finalmente levou Al Capone à prisão. O gângster mais famoso do século 20 era acusado de todo tipo de crime, incluindo 33 assassinatos, mas nunca se conseguiu provar nada. Apenas quando as autoridades puderam provar que ele havia sonegado impostos é que Al Capone pôde ser condenado a uma longa pena de prisão.

Na semana passada, a Associated Press revelou que Paul Manafort, chefe da campanha eleitoral de Donald Trump, entre março e agosto do ano passado, recebeu US$ 1,2 milhão de um grupo político pró-russo com base na Ucrânia. 

Manafort, que inicialmente disse que a informação era falsa, agora admite ter recebido o dinheiro, mas alega que foram honorários. O FBI o está investigando por possíveis contatos com agentes russos que poderiam ter apoiado a campanha presidencial de Donald Trump.

Sabe-se que Trump também se negou a mostrar sua declaração de renda. É difícil que tal documento não se torne público. Quando isso acontecer, “seguir o dinheiro” que ali aparece pode proporcionar interessantes revelações. Trump faria bem em pensar sobre como Al Capone e Richard Nixon se afundaram. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*MOISÉS NAÍM É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT, EM WASHINGTON

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