King Rodriguez/EFE
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Trump convida presidente filipino à Casa Branca e abre nova crise no governo

Duterte é acusado de ordenar massacres em medidas de combate ao tráfico de drogas; agências de inteligência dos EUA foram surpreendidas pelo convite feito durante um telefonema

O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 03h51
Atualizado 30 Abril 2017 | 19h46

WASHINGTON - O telefonema de Donald Trump no sábado 29 ao presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, era visto por autoridades de segurança americanas como rotina diplomática, uma vez que o republicano participará de uma cúpula no Sudeste Asiático em novembro. No entanto, a notícia de que Trump chamou à Casa Branca o filipino, acusado de ordenar massacres sob alegação de combater a criminalidade, expôs o governo a uma nova onda de críticas. 

Com o convite, Trump pareceu legitimar um líder autoritário acusado de ordenar o assassinato extrajudicial de suspeitos de tráfico de drogas. Agora, o Departamento de Estado e o Conselho de Segurança Nacional tentam colocar objeções à visita. Ainda não está claro se Duterte receberia o visto americano, em razão das acusações de abusos dos direitos humanos contra ele quando ainda não ocupava a presidência, afirmam advogados de direitos humanos.

Uma declaração da Casa Branca na noite do sábado afirmou que Trump teve uma “conversa muito amigável” com Duterte e os dois líderes haviam discutido “o fato de que os filipinos estão trabalhando muito duro para livrar seu país das drogas”.

“Ao endossar a guerra às drogas de Duterte, Trump se torna um cúmplice moral de futuros assassinatos”, afirmou John Sifton, o diretor para Ásia da organização Human Rights Watch. As medidas do governo filipino resultaram na morte de milhares de suspeitos de usar ou vender narcóticos e de outros sem envolvimento com drogas. O chefe de gabinete de Trump, Rience Priebus, defendeu a ligação feita por Trump. “O objetivo da ligação era falar de Coreia do Norte”, disse à rede ABC”, considerando o contato “necessário”.

Um porta-voz de Duterte, Ernesto Abella, confirmou o convite da Casa Branca, dizendo que Trump havia manifestado “compreensão e entendimento dos desafios que se colocam para o presidente filipino, em especial na questão das drogas”. 

A Casa Branca reforçou que o telefonema do presidente foi um de muitos a líderes asiáticos programados pela presidência americana depois de perceber sinais de que eles se sentiam negligenciados em razão do constante foco de Trump com temas de China, Japão e a tensão na Coreia do Norte. Neste domingo, 30, segundo a Casa Branca, Trump teria telefonado para os primeiros-ministros de Tailândia e Cingapura.   

Populista afeito a agir intempestivamente, Duterte compartilha algumas características com Trump. Não era o caso com Obama, a quem Duterte chamou de “filho da p...” quando questionado como ele reagiria se Obama levantasse questões de direitos humanos contra ele. Mais tarde ele se desculpou e seus assessores disseram que seu comentário era mais uma expressão de frustração do que um ataque pessoal. 

O convite de Trump ao líder filipino ocorre uma semana depois de o americano ter felicitado o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, por sua vitória num disputado referendo que segundo a oposição consolidou o autoritarismo em seu governo. O líder americano também falou calorosamente do líder egípcio Abdel Fatah al-Sissi, que tomou o poder num golpe militar, e elogiou generosamente o presidente chinês, Xi Jinping, nos últimos dias por sua cooperação para pressionar a Coreia do Norte, ignorando o fato de que Xi também tem mostrado um viés cada vez mais repressivo. / NYT e AFP

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