Edu Bayer/The New York Times
Edu Bayer/The New York Times

‘Trump deu nova vida à extrema direita’ 

Professor da Westfield State University, especialista em grupos radicais brancos, diz que presidente fez os supremacistas saírem do mundo virtual

Entrevista com

George Michael

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 06h00

Os movimentos supremacistas brancos nos EUA ganharam força nos últimos anos, à medida que o país passava por uma mudança demográfica. Segundo o professor da Westfield State University George Michael, a militância cresceu na internet e ganhou as ruas após a eleição de Donald Trump. Segundo ele, o grande legado do presidente americano foi ter feito esses grupos saírem do mundo virtual e se articularem na vida real. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Jovens com alta instrução lideram supremacistas

- Por que a extrema direita está no centro da política americana?

Tem havido mudanças na sociedade americana que têm permitido o crescimento desses movimentos, conhecidos como “alt+right”. Uma coisa importante é a mudança demográfica. A população tem se tornado mais diversa. Isso é consequência de uma lei de 1965, que mudou a imigração nos EUA. Antes, os imigrantes vinham da Europa. Após a lei, há mais imigrantes da América Latina e da Ásia. Isso está acontecendo há décadas, mas a questão alcançou uma massa crítica recentemente. O censo mostra que, em 2042, não haverá uma maioria étnica racial americana. Os brancos serão reduzidos a uma minoria. Isso tem causado incômodo entre eles. 

- Trump fez da imigração o foco da campanha. Qual o peso disso?

O que mudou o jogo foi a candidatura de Trump. Ele fez da imigração o centro da campanha. Não acho que ele seja nacionalista, racista, algo do tipo. Mesmo assim, ele encampou questões para as quais figuras do “alt+right” dão muito valor. 

- O que ocorre hoje tem conexão direta com a eleição de Trump?

Pode ser. Não acho que essa tenha sido a intenção de Trump. Ele recebeu muitas críticas pela resposta que deu a Charlottesville (protesto de supremacistas que deixou um morto na Carolina do Norte). Mesmo assim, acho que Trump deu nova vida à extrema direita. Ele teve um efeito mobilizador para o “alt+right”. Antes, esse pessoal estava mobilizado só no espaço virtual, em salas de bate-papo. A campanha deu a eles a oportunidade de se encontrar em protestos no mundo real. 

- Quais as diferenças dentro do ‘alt+right’ e quem são os líderes?

O nome mais importante é Richard Spencer, do National Policy Institute. Ele é um homem muito articulado, bem educado, tem boas conexões com outros membros do “alt+right”, um especialista nas mídias sociais. Ele pode se afastar da abordagem violenta e apresentar seus argumentos de maneira razoável. Ele é importante pela maneira como mobiliza o “alt+right”. É a pessoa que populariza o movimento. Jared Taylor, do American Renaissance, também é importante. Bem educado, articulado, ele é especialista em mídias sociais. 

- Há outros?

Outra estrela em ascensão é Matthew Heimbach. Ele tem 26 anos e criou a organização Traditionalist Youth Network. Ele é importante porque é jovem e bastante envolvido em ativismo de rua. Ele é bom em discursos longos e espontâneos, é capaz de se conectar com as pessoas de maneira emocional. Acho que tem capacidade de alcançar os jovens desiludidos do movimento branco, parte dessa chamada “geração milênio”, que se sente deslocada nos EUA. 

- Essa geração não está ligada ao democrata Bernie Sanders?

Sim, mas ele (Heimbach) cresceu socialista e usa sua rede de contatos de esquerda. Por isso, acho que ele tem o potencial de alcançar esses apoiadores de Sanders. Outra pessoa importante é Andrew Anglin. Ele dirige o site The Daily Stormer, que tem milhões de visitantes. Outro nome é Kevin MacDonald. Ele é o chefe intelectual do movimento. Ele é um professor universitário aposentado que escreveu uma trilogia de livros sobre judaísmo e antissemitismo. Ele argumenta que os judeus trabalharam coletivamente contra os interesses dos brancos, não só nos EUA, mas no mundo. Ele especificamente implica os judeus nas políticas de imigração de fronteiras abertas nos EUA, na Europa e na Austrália. 

- Qual a conexão entre os atuais supremacistas e a Ku Klux Klan?

É importante lembrar que a KKK não é um movimento homogêneo. Provavelmente, existem pelo menos 100 diferentes grupos nos EUA. Alguém pode simplesmente registrar uma caixa postal ou criar um website e dizer que é da Ku Klux Klan de Virgínia Ocidental, por exemplo. Acho que o “alt+right” se sente constrangido com a KKK. Eles a veem como um bando de caipiras idiotas. Muitas vezes, quando alguns representantes da KKK aparecem na TV, eles não se saem muito bem, não se apresentam bem, não são educados ou articulados, o que cria constrangimento.

Congresso envia a Trump resolução contra supremacistas brancos

- Qual o objetivo do ‘alt+right’?

Eles querem criar um Estado separado etnicamente. O principal objetivo é a separação racial, uma “autossegregação”, com brancos confinados em uma área específica.

- O movimento continuará importante na política americana?

Sim. A questão da mudança demográfica continuará, assim como a mobilização dos supremacistas. Eles estão cada vez mais hábeis para se comunicar, especialmente pelas mídias sociais. O “alt+right” tem tido uma presença significativa no espaço cibernético há 20 anos, mas as redes sociais foram uma virada no jogo. As pessoas passaram a trocar histórias muito rapidamente no YouTube e os vídeos se tornam virais muito rapidamente. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.