NICHOLAS KAMM/AFP
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Conexão com Rússia aumenta pressão sobre Trump, que radicaliza discurso

Metade das perguntas feitas ao presidente americano em 75 minutos de entrevista se concentram na relação dele e de sua equipe de campanha com Moscou; magnata chama a imprensa de ‘desonesta’ e diz ter herdado uma bagunça ‘em casa e fora’

Cláudia Trevisan / Correspondente, Washington, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2017 | 17h23

(Atualizada às 22h09) Uma sequência de questões sobre o relacionamento de integrantes de seu governo e de sua campanha com a Rússia dominou a primeira entrevista coletiva concedida por Donald Trump desde sua posse, há 28 dias. Em resposta, ele ampliou seus ataques à imprensa e prometeu punir os integrantes da administração responsáveis pelo vazamento de informações a jornalistas.

Em 75 minutos, Trump refutou os relatos de desordem na Casa Branca e disse que reportagens sobre vínculos de atuais ou ex-assessores com Moscou são notícias fabricadas com o objetivo de amenizar a derrota de Hillary Clinton na eleição de novembro. “Não fiz nada para a Rússia”, afirmou. “Eu não tenho nada na Rússia. Eu não tenho empréstimos da Rússia, eu não tenho nenhum negócio na Rússia.”

Metade das pouco mais de 20 perguntas feitas durante a entrevista estava relacionadas à Rússia e Michael Flynn, o ex-conselheiro de Segurança Nacional demitido na segunda-feira depois da revelação de que havia discutido sanções impostas pelos EUA ao país em telefonemas com o embaixador de Moscou em Washington. 

A palavra “Rússia” foi mencionada 56 vezes durante a coletiva, quase o dobro das 28 vezes em que a palavra “americano” apareceu. Diante da insistência para que caísse em contradição, o presidente reclamou: “Quantas vezes terei de responder à mesma pergunta?”

“A desonestidade da imprensa está fora de controle”, disse Trump no início da entrevista. Segundo o presidente, seu objetivo era apresentar sua mensagem “diretamente” ao povo americano. “O público não acredita mais em vocês”, afirmou, dirigindo-se aos jornalistas. Trump mandou alguns deles se sentar enquanto faziam perguntas, ironizou repórteres de grandes veículos, como CNN e BBC, e atacou vários meios de maneira direta.

“Os vazamentos são reais. Você sabe o que eles dizem, você diz isso e os vazamentos são absolutamente reais. As notícias são falsas porque muito do noticiário é falso”, afirmou. “Eu pedi ao Departamento de Justiça que investigue os vazamentos. Esses são vazamentos criminosos”, ressaltou Trump, que responsabilizou funcionários herdados do governo Barack Obama pela entrega de informações à imprensa.

Segundo Trump, a multiplicação de notícias “falsas” sobre o relacionamento de seu governo com a Rússia dificultou a obtenção de um acordo com o presidente Vladimir Putin. Durante toda a campanha, o republicano elogiou Putin e defendeu que EUA e Moscou atuem em conjunto no combate ao terrorismo.

“Acho que Putin provavelmente concluiu que ele não pode fazer um acordo comigo mais porque, politicamente, seria impopular para um político fazer um acordo. Eu não acredito que estou dizendo que eu sou um político, mas eu imagino que é isso que eu sou agora”, afirmou. Trump atribuiu a essa suposta avaliação três atitudes recentes de Moscou interpretadas por analistas como um teste dos limites da nova política externa americana: o sobrevoo de um destróier dos EUA por jatos russos, o teste de um míssil em violação a tratado entre os dois países e a navegação de um navio espião a 50 km da costa americana.

Trump se recusou a dizer se responderá às três ações, mas indicou que continuará a buscar uma aproximação com o presidente russo. “Seria muito mais fácil para mim ser duro com a Rússia, mas daí nós não conseguiríamos fechar um acordo. Agora, eu não sei se nós vamos fazer um acordo. Talvez sim. Talvez não.”

Questionado várias vezes sobre o assunto, Trump disse não ter conhecimento de contatos entre integrantes de sua campanha e autoridades russas durante a disputa eleitoral. “Herdei uma bagunça. Em casa e fora, uma bagunça”, afirmou.

Decreto. Trump assinará na próxima semana uma nova versão do decreto sobre restrições à entrada de estrangeiros nos EUA, com mudanças que adaptam o texto original à decisão judicial que suspendeu sua aplicação. Anunciado no dia 27, o primeiro decreto afetou a vida de milhares de viajantes e refugiados em todo o mundo e causou protestos. 

A medida suspendia por 90 dias o ingresso de cidadãos de sete países de maioria islâmica e interrompia o recebimento de refugiados pelo período de 120 dias. No caso de sírios, por tempo indeterminado. O novo decreto deverá ter alcance reduzido e excluirá detentores de green card, os que obtiveram status de refugiados ou tenham relações com instituições nos EUA. A nova versão também deve eliminar a previsão de que minorias religiosas terão prioridade no programa de refugiados, o que foi interpretado como discriminação. 

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