AFP PHOTO / Kiyoshi Ota
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Tempo da paciência estratégica com Pyongyang acabou, diz Trump em Tóquio

Presidente americano defendeu a negociação de um novo tratado comercial com o Japão, depois de ‘muitas décadas de gigantesco déficit comercial’, se reuniu com o imperador Akihito e ainda se encontrou com parentes de civis sequestrados pela Coreia do Norte

O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2017 | 05h53
Atualizado 06 Novembro 2017 | 09h28

TÓQUIO - O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o tempo da "paciência estratégica" com a Coreia do Norte acabou, durante uma entrevista coletiva nesta segunda-feira, 6, em Tóquio, onde recebeu apoio à decisão de manter todas as opções sobre a mesa ante as provocações de Pyongyang.

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Trump já havia advertido em ocasiões anteriores que Washington poderia ir além da diplomacia para frear o programa de armas nucleares norte-coreano e considerar uma intervenção militar.

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"O programa norte-coreano é uma ameaça para o mundo civilizado e para a paz e a estabilidade internacionais", declarou em Tóquio, a primeira escala de uma viagem pela Ásia dominada pela crise com Pyongyang. "A era da paciência estratégica acabou", completou, ao lado de seu anfitrião, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe.

O premiê, cujo país viu nos últimos meses o regime de Pyongyang lançar dois mísseis que sobrevoaram seu território, apoiou a política americana. "Respaldamos a política de Trump de manter todas as opções sobre a mesa", afirmou, antes de destacar que o Japão derrubará os mísseis norte-coreanos, "se necessário". "Em tais casos, Japão e EUA manterão uma cooperação estreita", disse.

O chefe de governo japonês anunciou ainda que Tóquio pretende "congelar os bens de 35 organizações e personalidades norte-coreanas", em uma lista adicional de sanções ao programa nuclear e de mísseis de Pyongyang, mas também relativa aos sequestros de japoneses pelos serviços secretos norte-coreanos nas décadas de 1970 e 1980.

Comércio

Trump ainda defendeu a negociação de um novo tratado comercial com o Japão, depois de "muitas décadas de gigantesco déficit comercial". Durante um encontro com líderes empresariais japoneses e americanos, o republicano afirmou que o comércio com Tóquio não é justo e nem aberto. "Não é livre e nem recíproco", disse, apostando em negociar isso novamente de "maneira amigável".

O líder americano lamentou que os EUA tenham sofrido com uma situação de "gigantesco déficit comercial" de quase US$ 70 bilhões anuais na qual "o Japão ganhou durante muitas décadas". Neste sentido, lembrou que milhões de carros japoneses são vendidos no seu país todo ano, mas que praticamente não são vendidos veículos americanos no país asiático.

Em relação com a saída dos EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP), promovido pela gestão Trump, o republicano disse que será demonstrado que a decisão foi "correta".

"Teremos mais comércio do que nunca tivemos com o TPP", afirmou para uma plateia de altos executivos de empresas japonesas como Nissan, Honda, Mazda e Mitsubishi, e nove americanas, entre as quais estavam Boeing e Morgan Stanley.

Encontros

Ainda nesta segunda-feira, Trump se reuniu com o imperador do Japão, Akihito, um encontro que provocou muita expectativa pelo complexo protocolo da Casa Imperial e pelas críticas a seu antecessor, Barack Obama, que saudou o monarca com uma marcada reverência. Trump driblou os obstáculos apenas inclinando a cabeça diante do imperador, em um encontro no qual estava acompanhado pela primeira-dama, Melania.

O presidente dos EUA também se encontrou com os parentes dos civis sequestrados pela Coreia do Norte para treinar seus agentes de espionagem e ensinar a língua e a cultura japonesa. Pyongyang admitiu o sequestro de 13 civis japoneses, mas Tóquio acredita que o número de casos é maior, incluindo o de uma adolescente de 13 anos raptada quando voltava da escola.

Trump definiu como uma "desgraça tremenda" o sequestro destes japoneses, que foram obrigados a trabalhar para o regime norte-coreano como professores de idioma e cultura, dentro do programa de espionagem do país vizinho.

No encontro participaram 16 parentes de sequestrados e também Hitomi Soga, uma das pessoas que foram levadas à força à Coreia do Norte, mas que foi devolvida depois em 2002 junto a outros quatro japoneses. "Escutamos muitas histórias tristes daqueles sequestrados pela Coreia do Norte e vamos trabalhar com Abe para trazê-los de volta. Passaram por muitas coisas", lamentou Trump.

O esclarecimento destes casos e o retorno dos sequestrados que continuam vivendo na Coreia do Norte é uma das prioridades do governo de Shinzo Abe, que procura obter o apoio internacional para a causa. O premiê prometeu mais sanções unilaterais à Coreia do Norte e disse que "sua missão só vai estar cumprida quando eles se reunirem com seus entes queridos".

Trump foi o primeiro presidente americano a se referir ao tema durante discurso na Assembleia Geral da ONU, depois de ficar "comovido" com o relato de parentes de sequestrados que visitaram Washington em setembro, segundo fontes da Casa Branca.

Depois do Japão, Trump viajará para a Coreia do Sul, China e para a reunião de cúpula da APEC (Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) no Vietnã. A viagem terminará com o fórum da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) nas Filipinas. / AFP e EFE

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