EFE/Jim Lo Scalzo
EFE/Jim Lo Scalzo

Trump e a arte de fazer concessões

Ao tomar decisão projetada em grande parte para agradar base doméstica, republicano não faz diplomacia, mas sim favorecimento político

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 05h00

Com sua decisão de mudar a embaixada americana para Jerusalém, o presidente dos EUA, Donald Trump, realizou algo intrigante para quem se diz um ótimo negociador. Fez uma concessão volumosa e preventiva para um dos lados em uma negociação complicada, sem obter nada em troca. Se é assim que ele opera, não é de se admirar que muitos de seus antigos colegas pensem que ele, afinal de contas, não é um empresário tão bem-sucedido.

EUA defendem que decisão sobre Jerusalém ajudará a avançar no processo de paz

Jerusalém é a capital de Israel e permanecerá assim. Não discuto os fatos ou seus méritos. Mas o motivo pelo qual até agora todos os 86 países que têm embaixadas em Israel as situaram em Tel-Aviv é que Jerusalém é parte integrante do acordo final entre israelenses e palestinos - que também reivindicam a cidade como sua capital. Ela possui locais sagrados para as três religiões monoteístas e possui uma grande população árabe que, mesmo após décadas de novas colonizações israelenses, compreende mais de um terço da cidade. Portanto, o status formal de Jerusalém sempre foi - para republicanos e democratas, europeus e asiáticos - uma questão a ser sistematizada no contexto da paz.

Se essa ação fosse parte de um plano estratégico maior, seria algo a ser considerado. Nesse caso, o anúncio de Trump teria sido cuidadosamente definido, acoplado a mudanças políticas importantes de Israel, ou faria parte de uma série de medidas para tranquilizar os dois lados. Em vez disso, parece uma decisão única, projetada para agradar à base doméstica de Trump - cristãos evangélicos e doadores pró-Israel. O único aspecto estratégico parece ser que isso ajudará a sustentar a base do Partido Republicano às vésperas da eleição na qual Roy Moore concorre ao senado pelo Alabama. Isso não é diplomacia; é favorecimento.

Há maneiras de resolver o problema de Jerusalém, como dividir alguns bairros na parte leste e permitir que os palestinos os reivindiquem como sua capital. O anúncio de Trump não exclui essa possibilidade, o que torna a escolha ainda mais intrigante. Na verdade, conquista pouco terreno, enquanto ofende milhões de palestinos, centenas de milhões de árabes e a opinião pública. Quando China, seus aliados europeus, o papa e os reis de Arábia Saudita e Jordânia expressam forte oposição, certamente vale a pena questionar a sabedoria da política.

A mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém sempre foi um gesto simbólico, mais projetado para agradar aos americanos do que para fazer avançar a paz e a estabilidade no Oriente Médio. O estudioso israelense Yoav Fromer ressalta que em 1995, quando Bob Dole planejava sua campanha para enfrentar Bill Clinton pela presidência, queria apresentar-se como ardentemente pró-Israel. Suas projeções de votação não demonstraram isso, então ele decidiu agarrar-se a uma questão simbólica. Assim, nasceu a lei que exige que os EUA mudem sua embaixada, embora ele tenha previsto uma renúncia de seis meses que cada presidente renovou continuamente.

Embora muitos tenham previsto violência no Oriente Médio, é provável que ela seja contida. Israel é a superpotência regional, e seus vizinhos sabem disso. Também tem um rigoroso controle sobre os territórios palestinos, com uma rede de barreiras, postos de controle e operações de inteligência. 

O perigo é realmente que esta decisão se some ao crescente desespero dos palestinos, já fracos, divididos e desajustados. Eles nunca tiveram uma boa liderança e neste momento eles mal têm qualquer liderança. Vivem numa condição incomum: cidadãos de Estado algum, sem um país próprio.

Enquanto isso, Israel vai continuar prosperando economicamente e mantendo seu caráter genuinamente democrático, mas com uma grande ressalva: governará terras com milhões de pessoas sem direitos políticos completos.

Haverá uma Israel que se assemelha à Suíça, cercada por uma Palestina que parece Bangladesh. É possível que, em algum momento, essa desigualdade de renda, status e direitos políticos leve a algum tipo de explosão. Isso conduzirá a uma maior polarização e discórdia. E a ação dos EUA terá aprofundado essas fissuras e exacerbado as tensões. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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