AFP photo -musa-al-shaer
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'Trump errou em não pedir nada em troca a Israel’

Para Ian Lustick, especialista em Oriente Médio da Universidade da Pensilvânia, EUA poderiam ter exigido moderação nas demandas sobre as fronteiras de um Estado Palestino

Entrevista com

Ian Lustick

Cláudia Trevisan, Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 05h00

WASHINGTON - Os Estados Unidos cometeram um “erro diplomático de primeira grandeza” ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel sem exigir em troca moderação do governo de Binyamin Netanyahu nas negociações de paz com a Palestina, disse Ian Lustick, especialista em Oriente Médio da Universidade da Pensilvânia. Ian Lustick é professor de ciências políticas na Universidade da Pensilvânia e autor, entre outros, de Unsettled States, Disputed Lands, Arabs in the Jewish State e Trapped in the War on Terror. Para ele, o governo Donald Trump ficará cada vez mais alinhado às posições de Israel, que se tornou um país de direita ultranacionalista, no qual a aceitação de dois Estados para solução do conflito é quase inexistente. A seguir, trechos da entrevista.

Trump reconhece Jerusalém como a capital de Israel e transfere embaixada de Tel-Aviv

Qual o potencial impacto do anúncio sobre Jerusalém?

Da perspectiva da diplomacia, os EUA sempre avaliaram que poderiam conseguir concessões de Israel com o reconhecimento de Jerusalém como sua capital. Trump errou ao dar a Israel o reconhecimento sem ter nada de volta. Isso é um erro de primeira grandeza. Os EUA abriram mão da possibilidade de negociar o reconhecimento internacional de Jerusalém como capital em troca da moderação de Israel em suas demandas sobre quais seriam as fronteiras de um Estado palestino. Essa é uma grande perda para qualquer um que imagine que as negociações de paz serão retomadas. 

Mas ele está certo quando diz que os velhos caminhos para a paz se exauriram, pois a solução de dois Estados que os guiou não é mais possível. Se Trump diz que precisamos de uma nova abordagem, deveria falar sobre democracia. Se Jerusalém é a capital de Israel, como pode ser que 40% de sua população não tem cidadania israelense? Isso não ocorre em nenhuma outra capital do mundo. Ao mesmo tempo, Trump lançou mão da velha diplomacia ao enfatizar que não há nenhuma implicação do reconhecimento para as fronteiras de Israel em Jerusalém. Ele indiciou que, do ponto de vista dos EUA, ainda há uma diferença entre Jerusalém Ocidental, que era a capital de Israel, de segundo os israelenses, desde 1949, e Jerusalém Oriental, a área adicionada em 1967. 

Nesse ponto, ele não mudou nada, mas a linguagem corporal para o Oriente Médio é muito clara: ele considera a situação tão alterada que os EUA não pressionarão por uma solução de dois Estados. Há diferença entre dizer ‘vou aceitar uma solução de dois Estados se as partes concordarem com ela’ e ‘nós faremos tudo o que pudermos para chegar a esse resultado’.

Por que a solução de dois Estados não é mais possível?

Porque ela demanda a decisão de Israel de se retirar da maioria dos assentamentos na Cisjordânia e permitir que um Estado Palestino viável possa existir lá. Não há maioria política em Israel disposta a fazer isso. Israel se tornou um país de direita ultranacionalista. É difícil ver uma coalizão moderada o suficiente para firmar um acordo aceitável para os palestinos, considerando o elevado custo que implicaria retirar Israel da Cisjordânia. 

Jerusalém, cidade de orações e conflitos

Se a solução de dois Estados não é mais possível, qual é a saída?

A única alternativa é um arranjo político em que todas as pessoas que vivem entre o Rio Jordão e o mar sejam tratadas igualmente. Essa é uma questão da arquitetura do Estado. Pode haver um Estado, em que todos são cidadãos, pode haver duas nações em um único Estado. Isso pode levar muito tempo.

Qual o impacto do anúncio sobre o papel dos EUA como mediador das negociações de paz?

Os EUA não são vistos como intermediário isento há muito tempo. O anúncio vai tornar difícil até fingir que há negociações ou que há uma possibilidade de dois Estados. Minha visão é que os EUA não apresentarão nada radicalmente novo e apoiarão o plano de Netanyahu, pelo qual o Estado palestino é o que os palestinos têm hoje, esse arquipélago de um pouco de controle aqui, um pouco de controle acolá. Não tem nada a ver com Jerusalém, não tem continuidade territorial, não tem poder real. Acredito que isso é o que virá do governo Trump: um contínuo alinhamento com Netanyahu, como ocorreu com a decisão de ontem. 

Israel terá a soberania de fato sobre toda Jerusalém?

Sim. Há no momento um Estado lá, que governa de fato toda a área entre o Rio Jordão e o mar, e o seu nome é Israel. E os habitantes desse Estado não são todos cidadãos. A questão para o futuro é que tipo de Estado ele será: um Estado em que todos que vivem nele são iguais ou será um Estado com dois ou três tipos de leis, dependendo de quem você é. Isso é o que existe hoje.

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