Alex Brandon/AP Photo
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Trump esbarra em limites constitucionais

Medidas adotadas pelo presidente, como restrições a muçulmanos, fim do Obamacare e muro na fronteira têm resistência no Congresso e na Justiça

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 05h00

WASHINGTON - Três semanas de governo foram suficientes para algumas das principais propostas de Donald Trump passarem por um choque de realidade. O decreto que limita viagens ao país foi suspenso pela Justiça. A revogação “imediata” do Obamacare foi adiada não se sabe para quando. A conta do muro na fronteira não deve ser paga pelo México, mas pelo contribuinte americano. 

A hiperatividade de Trump começou a esbarrar nos limites constitucionais ao exercício do poder, nos rituais de discussão e aprovação de leis pelo Congresso e nos interesses de outros países. Seu desejo de reinventar a ordem mundial sob o lema “América em primeiro lugar” sucumbiu em parte ao peso dos arranjos que preservam a estabilidade na Ásia.

Depois de colocar em xeque o princípio de “uma só China”, Trump voltou atrás e adotou um tom amigável na quinta-feira 9, em sua primeira conversa telefônica com o presidente Xi Jinping desde a posse. 

O início do governo também foi marcado pelo aumento do ativismo político no país. No dia seguinte à posse, Trump viu a maior manifestação da história americana, que levou 3 milhões de pessoas às ruas de diferentes cidades do país. A chegada do magnata à Casa Branca deu origem a movimentos de base de oposição, organizados a partir de uma iniciativa chamada Indivisible (Indivisível), que apresenta um guia prático de resistência à agenda de Trump. 

Vários deputados republicanos começaram a sentir a pressão desses grupos em reuniões na semana passada em seus distritos eleitorais. “Trump está enfrentando o mundo real e uma oposição popular muito mais ativa do que a encontrada por muitos outros presidentes”, disse George Edwards, cientista político da Universidade Texas A&M. Além disso, seu índice de aprovação é o mais baixo da história moderna dos EUA para um governante em início de mandato. Na semana passada, a visita que Trump faria a uma fábrica da Harley-Davidson, em Milwaukee, foi cancelada pelo temor de que ele fosse recebido por protestos.

Peter Feaver, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional no governo de George W. Bush, disse que algumas das propostas mais provocadoras de Trump foram “espremidas” pela realidade. Em sua opinião, esses mesmos limites acabarão contendo a atuação dos mais radicais integrantes de seu gabinete, entre os quais está o assessor especial Stephen Bannon.

Professor da Universidade Duke, Feaver avaliou que a ala mais extremista do governo também é contrabalançada por integrantes do gabinete alinhados com visões mais tradicionais do papel dos EUA no mundo, como os secretários de Defesa, James Mattis, de Segurança Interna, John Kelly, e de Estado, Rex Tillerson.

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